18 dezembro 2017

A MENTE DA VÍTIMA DE VIOLÊNCIA AFETIVA APÓS O ROMPIMENTO

Olá pessoas, tudo bom?

Gente hoje o texto é um pouco pesado, necessário, inclusive como forma de elaboração para esta que escreve. Começo perguntando:
Vocês realmente sabem como fica a mente de uma pessoa após o rompimento de um relacionamento abusivo?
Sabe gente, imagina o inferno, é um pouco pior, a mente fica paranoica, enfraquecida e é tomada por uma tsunami de culpa, dor, pois foi um bom tempo sofrendo gaslighting, o costume de pisar em ovos e auto culpabilização faz a pessoa continuar mentalmente enfraquecida, a subserviência imposta vivenciada no relacionamento faz a pessoa tentar não demonstrar socialmente e assim se instala um processo chamado “síndrome do estresse pós traumático”, que a pessoa busca de certa forma o isolamento social, no geral se afasta e foge de tudo que pode trazer o contato com a pessoa, redes sociais, os amigos em comum, locais são evitados e o pior a mente está estraçalhada, autoestima é algo bem pequeno, o medo e o receio governa a cabeça da pessoa e a síndrome do pânico, a depressão são bem comuns de acontecer, pois os níveis de ansiedade e a tristeza consomem a pessoa, o período do rompimento é onde tudo vem à tona.
Daí vem sempre pessoas idiotas, isso para não chamar de nome pior e falam frases de efeito achando que estão com a bola toda, ahazando e soltam um “você precisa melhorar”, “pensa positivo”, “nossa como você é pessimista” (essa é a pior, vontade de socar a cara) dentre outras frases desgraçadas que só pioram o estado da pessoa, além da pessoa estar devastada, ela ainda sente que está sendo um incomodo, que é tóxica para as pessoas que estão ao seu redor, que nada tem para contribuir com o meio, espero  que esses idiotas que defecam pela boca e não possuem empatia nunca passem por relacionamento abusivo.
Gente, as pessoas que passaram por relacionamento abusivo precisam de um lugar que possam se sentir amadas, sem julgamento, com acolhimento e precisam saber que são bem-vindas, a autoestima delas tá quase no zero, precisam entender que mesmo com tudo quebrado ainda existe um lugar que pode chegar e fazer parte, nunca se esqueçam que ela foi massacrada psicologicamente por um bom tempo.
No meu caso da última vez foi a ADEH, as manas trans que me ajudaram a enxergar que algo aqui dentro valia algo, me sentir abraçada e acolhida dentro da minha orientação sexual e no bagaço que estava mentalmente, foi a melhor rede de apoio que tive, pois eu já estava com a mente estraçalhada antes desse relacionamento, o que ele fez foi só jogar álcool no que já estava em carne viva, é que nem bater em mendigo casqueiro, a covardia foi a mesma.
Sabem o pior? A mente da vítima é autossabotadora, sempre existe a esperança do pedido de desculpas, do cara ficar de boa de verdade, dele finalmente entender que está sendo um babaca desgraçado, sabe,ter uma iluminação divina e se tornar um cara que dá pra continuar o relacionamento, a vítima gosta tanto dele que suporta um peso muito grande, só que isso nunca vai acontecer de verdade verdadeira, só que ela passa um grande tempo esperando e essa espera ao mesmo tempo que gera raiva, sensação de injustiça, se torna culpa, ela se culpa, tudo o que ele dizia pra ela, vira uma assombração na cabeça.
Se tem uma coisa que aprendi nos relacionamentos abusivos (sim, foram 3) que vivenciei (sobrevivi), é que não existe pedido de perdão verdadeiro pra quem não reconhece que está cometendo violência e não existe o ato de se redimir e admitir pra quem acredita estar na razão, mesmo que tenha cometido atrocidades e injustiças, a culpa da agressividade deles é sempre da vítima, eles sempre vão se vitimizar covardemente ou vão simular o pedido de perdão até conquistar o que desejam e como disse, nunca vão reconhecer de verdade “devastamento” psíquico que causaram. Pessoas da última vez, eu só repetia para todo mundo que eu era a “louca da vez”, pois era a última louca que tinha me relacionado com ele, todas as anteriores segundo ele eram loucas, ele era um coitado vítima das loucas.
Enquanto a vítima está doente, com a mente estraçalhada, o agressor está bem, sempre estão, super nutridos com a alma que sugaram da vítima, saem do relacionamento como se nada tivesse afetado, e realmente não foram nocivamente afetados, estão até mais fortalecidos, pois quem está o trapo é ela, a ex parceira afetiva, são os dementadores (Harry Potter) da vida real, enfim, se você quer mesmo saber o que acontece com a mente da vítima, é só pensar no estado que uma pessoa fica após o ataque de um dementador igualzinho no filme/livro.
E vou contar uma coisinha para vocês, uma mente estraçalhada por relacionamento abusivo está quebrada e algumas partes nunca se recuperam por inteiro, algumas partes não tem como curar, o tempo é amigo e ajuda muito em vários sentidos, mas nunca mais volta ao que era antes. O relacionamento abusivo gera traumas reais que são para a vida inteira, não rancor como algumas pessoas desgraçadas costumam dizer para deslegitimizar a vítima, são traumas que somos obrigadas a conviver diariamente, se existisse uma borracha para apagar, ou um remédio para curar, algo que consertasse definitivamente o que está quebrado e não tem reparo, podem acreditar que seria mais fácil lidar, mas não existe infelizmente. 
Bom deixo você com algumas músicas que expressam bem esse texto, a primeira é mais ou menos como a vítima pensa antes de romper e assim fica por muito tempo sendo dilacerada psiquicamente (eu choro toda vez que escuto essa música, pois é gatilho), Back To Black pq né... Stromae é vida e tô apaixonada por ele, vale a pena, mesmo com a legenda horrível e confusa, Brigitte que é super feminista, a tradução do google é uma porcaria, mas a letra é diva e fala sobre sororidade, o clipe me faz pensar em uma casa de acolhimento de vítima de violência. Hole in my soul que foi de onde eu comecei esse texto e pra finalizar ZAZ, que é uma delicia, essa é pra levantar a alma, oh não confiem em tudo que vocês pegam de tradução em francês, geralmente não é muito bacana e foge do sentido real.







06 dezembro 2017

Pessoas que trabalham atendendo pessoas precisam aprender mais sobre gênero.





Olá pessoas, tudo bom com vocês?

Estou um pouco distante do blog, mas podem acreditar que semanalmente estou tentando escrever e trazer textos novos, mas meu tempo está curto e estou um pouco desorganizada com as coisas fora do trabalho. Hoje venho conversar com pessoas que trabalham atendendo pessoas, tanto faz o setor, tanto faz a formação, o que importa é trabalhar atendendo pessoas.

Como alguns de vocês sabem meu pensamento sempre está com as pessoas trans, posso estar na luta feminista, LGBT por ser bissexual, mas a prioridade na sensibilidade é sempre voltada às pessoas trans, lembrando que este ano só em Floripa morreram 2 gurias por transfobia. Pensando nos percalços por ser mãe de uma pessoa de gênero fluído (queer) que se intitula “êla” e no tanto que as vezes é difícil lidar com o mundo (não dentro de casa, amamos incondicionalmente nossa Lu do jeitinho que ela se expressa e é). Na escola dela temos o apoio necessário e todos são loucos por êla, não sofre bulling das pessoas, aliás lacra muito em todos os locais que está, mas dentro de mim mora um medo terrível do preconceito e da intolerância por parte das pessoas ignorantes.

Uma das melhores coisas que fiz na vida foi me dedicar ao estudo de gênero, pois na graduação de psicologia não existia disciplina, não se tocava no assunto e meus colegas saíram com uma lacuna enorme nesse sentido, meu maior privilégio foi meu interesse natural por entender essas questões, afinal, entrei na psico para virar “sexóloga” (esse era o nome dado na época).

Se uma pessoa não convencional entra em uma loja é bem possível sofrer preconceito, se uma pessoa que tem vagina, que transa com pessoas com vagina vai ao ginecologista sofre preconceito, dentre outras situações infinitas, o preconceito mora nos mínimos detalhes de nossa sociedade e como tudo está mais claro atualmente, a necessidade de desenvolver o respeito e a empatia é urgentemente necessária.

Pessoas que trabalham atendendo pessoas precisam aprender mais sobre gêneros, sobre violências de gênero e sobre principalmente direitos humanos, tudo envolve gênero e a máxima de que precisamos tratar as pessoas como iguais, deve ser colocada em prática urgentemente, mais do que nunca, afinal, genital não deve definir caráter (com exceção dos homens heterossexuais cis). 

Profissionais da área da saúde, principalmente da área de saúde mental, ginecologia (são vocês que podem visualizar a violência doméstica mais de perto), pessoas que trabalham na atenção básica, vocês precisam estudar e se especializar em gênero urgentemente, para acabar o close errado e pra não morrerem falidos, a cada dia as pessoas correm de profissionais assim, que tem preguiça de ampliar o olhar. Euzinha aqui só vou e levo a Luísa quando tenho absoluta certeza que vamos ser atendidas por profissionais assim, que a deusa nos livre de gente ignorante e preconceituosa.



06 agosto 2017

A vulnerabilidade e a insegurança social são banquete para reacionários

Olá pessoas queridas!

Hoje venho com um tema que não quer calar, depois que fiz a capacitação em Psiquiatria Forense, não consigo parar de pensar e alguns fatos políticos estão me incomodando muito e me faz pensar muito em certo possível candidato a presidência que faz questão de fazer barraco, agir com fascismo e desumanidade, que surta em frente às câmeras, desrespeita todos que discordam dele, principalmente com as mulheres e pessoas LGBT+ é agressivo sádico e irônico o tempo todo, faz adoração aos torturadores da ditadura militar e o pior, ganha admiradores aos baldes com essas atitudes, chamam até ele de mito.

Lembro quando o filme Tropa de Elite estourou cinemas e a personagem do Capitão Nascimento foi ovacionado e idolatrado pela população, se vocês lembrarem, vários jargões saíram do filme, era comum ouvir as pessoas dizendo com prazer “pede pra sair”:


 E no período do filme Cidade de Deus a frase clássica do Zé Pequeno, aliás, um dos melhores filmes nacionais que mostra a mente de um psicopata grave de maneira muito realista:



Trouxe essa reflexão toda pra entrar nos aspectos do perigo da vulnerabilidade social, pois a baixa autoestima social (complexo de vira-lata), fragilidade e insegurança fortalecem figuras como estas citadas acima, afinal, o medo do desemprego, violência, falta de saúde é lucro para quem está no poder e utiliza deste para benefício próprio.

No período pré-ditatorial aconteceu uma campanha massiva de segurança nacional, de que se houvesse a intervenção militar e nosso país ficasse sob a gerência dos militares, os problemas estariam resolvidos e só assim o país entraria na tão sonhada estabilidade. A grande massa acreditou nisso piamente e o país caiu em um período obscuro, de censura, a liberdade de ir e vir foi tolhida e só se sabia do que eles permitiam.

A adoração ao estereótipo do macho alpha, ao grande pai “justiceiro” e punitivo, gera a falsa sensação de segurança social e o que grande parte da população enxerga por falta de informação, de conhecimento de seus direitos (ainda acho que deveríamos ter uma disciplina nas escolas sobre a constituição) é que essas figuras são salvadoras da pátria, vão trazer a “ordem e o progresso” para o país, só que não é isso que acontece, essas figuras são sádicas e não estão nem um pouco preocupadas em melhorar a situação do país, não estão preocupadas em emergir as camadas mais miseráveis e muito menos na estabilidade econômica.


Uma pátria fragilizada pela ignorância, por um estado criminoso que não fornece o básico e nega-se a governar em prol da população, fica a mercê de pessoas opressoras, pois sem o fortalecimento social, qualquer um com roupa bonita, uma boa equipe de marketing e discurso imediatista, ganha a atenção e a adoração popular, como no caso da população de rua que vive em São Paulo, que seus pertences foram saqueados pela atual prefeitura, só pra mostrar que algo está sendo feito.

A população tem desprezo por essas pessoas, a população de rua na opinião dessas pessoas são desprezíveis, causa incomodo, é tudo pobre, sujo e vagabundo, no fundo queriam jogar essas pessoas no lixo ou que fosse permitido fuzilar a população de rua, pois o poder não é só com os que governam, existem as relações de micro poder e o ato de oprimir/punir quem está abaixo dos privilégios, frágeis/vulneráveis é cultural.

O que reina é a meritocracia, manifestações em prol do bem comum é coisa de vagabundos e sim, se por um lado existe a baixa autoestima social, por outro a insegurança social também estimula o estado bélico, desumanização das relações humanas e a mesma população que se sente segura com fascistas no poder, também age com sadismo entre si e com os menos favorecidos.

Para finalizar, o que os fascistas, conservadores e machistas dizem ser a “geração mimimi”, Leandro Karnal se refere como a “fase de celebração” (http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-tendencias/noticia/2016/09/o-mundo-contemporaneo-nas-reflexoes-agudas-de-leandro-karnal-7482021.html)

“O medo do fascismo no passado era o medo de rebaixamento social. O esteio do fascismo é o medo social. À medida que comportamento alternativos eram proibidos - mulher não votava, homossexuais eram contra a lei e negros não tinham direito – havia tranquilidade do pensamento conservador. Depois veio a fase da tolerância. Hoje nós vivemos a fase da celebração. Existir um 8 de março, dia internacional da mulher, um 28 de junho, dia do orgulho gay, e um 20 de novembro, dia da consciência negra, existir um aparada do orgulho gay, existir um feriado de Zumbi quase nacional, faz com que velhos medos não aquietados ressurjam: o medo sobre o feminino, a misoginia, é o medo mais estruturado e antigo e sólido de todos, renasçam”
  







17 maio 2017

Ativismo LGBT: As dores e as delícias de ser o que se é.

Hoje é o dia internacional contra a homofobia e faz um tempo que estou com vontade de escrever esse texto, mas sempre aparece algum outro tema, acabo não escrevendo e acredito ser necessário em vários sentidos, algumas pessoas que não possuem engajamento e empatia com as nossas causas, acabam distorcendo e por falta de conhecimento confundem a reação do oprimido com a violência do opressor e vira um rolo desnecessário e isso eu digo sobre o feminismo também, pois é mais fácil a má interpretação nesse quesito  e na verdade, ser feminista é lutar por equidade de gêneros e lutar por isso não é um mar de rosas em nenhum sentido, é romper paradigmas sociais cronificados e não é fácil.

Pessoas heterossexuais prestem atenção!

Não odiamos vocês, mas não suportamos mais sucumbir, renegar nossa natureza, viver escondidos, silenciados e muito menos suportamos viver nossos afetos clandestinamente por culpa de uma sociedade que não nos respeita, que tenta a todo custo nos colocar num molde doentio e acredita piamente que somos aberrações e não somos, aliás, nos orgulhamos muito de tudo isso, garanto que se as coisas evoluírem, não existe espaço para reação, pois a intolerância não será mais um risco pra nós, não se esqueçam do atentado de Orlando em Junho do ano passado, nas mortes injustas por transfobia, dentre as maiores atrocidades que ocorrem.

Sair do armário nesse mundão não é uma tarefa fácil, a vida não fica feliz totalmente, é uma luta diária, para quem se assumiu com mais idade como foi comigo, é uma luta constante com as antigas amizades, com alguns familiares que tentam colocar a gente no molde heterossexual, mesmo que seja indiretamente e machuca muito, com as novas pessoas é difícil também, pois confiar nas pessoas passa a ser tarefa difícil, a gente se protege, pois o mundo bate e nunca se sabe o limite da LGBTfobia de ninguém.

Vocês pessoas cis heterossexuais nunca vão imaginar como é, pois poucos de vocês conseguem se colocar no nosso lugar e ninguém aqui é doente, o que nos faz adoecer é o ato de não ter liberdade para ser e exercer o que se é e mesmo se fosse doença, não mereceríamos o que vocês fazem conosco de maneira direta, indireta ou inconsciente:

  • Em suas piadas de mau gosto, ninguém aqui é motivo de piada e nem motivo de vergonha, "LGBT não é bagunça";
  • Em seus discursos moralistas, afinal, temos nossa cultura diversa e adoramos tudo que envolve a liberdade do universo LGBT, vocês desrespeitam nossa cultura e vai ter afeminada, sapatão, travesti, lady, pintosa, caminhoneira, sim! Respeitem nossa cultura;
  • Em seus julgamentos desnecessários e maquiavélicos;
  • Em achar que porque é LGBT somos afim de qualquer pessoa e todo mundo que aparece é presa, que medo vocês sentem de nós, procurem um psiquiatra, o nome disso é megalomania;
  • Em colocar a gente como promíscuos e levianos;
  • Em suas agressões físicas (o Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo e o país que mais acessa pornografia com pessoas trans) e nas psicológicas que vocês não percebem, mas dói na alma;
  • Em nos objetificar, em achar que lésbica/bissexual está a serviço de fetiche masculino e casal heterossexual ou mulheres/homens que só querem experimentar, resolvam isso entre vocês heterossexuais;
  • Em sua forma de tentar nos controlar e botar nos padrões ansiosos e depressivos que vocês teimam em dizer que é o melhor que existe.
  • Em colocar nossa maneira de amar como algo sujo, errado, que só cabe aos filmes pornográficos e tem que ser escondido a todo custo;

Quando uma pessoa LGBT é ríspida e reage, não é falta de educação, é porque o limite de suportar a opressão acabou, queremos respeito, respeitamos o espaço de vocês, mas queremos o mesmo direito de ir e vir que vocês tem, não somos criminosos, não é uma opção sexual como muitos heterossexuais fetichistas acreditam, é orientação sexual, nasceu com a gente, a gente quer liberdade, não queremos sentir medo da hostilidade, de não conseguir emprego, de perder o emprego, de andar na rua com nossos amores, de estupro corretivo, assassinato, abusos morais e sexuais, depressão, é a velha lógica do instinto de sobrevivência ou fugimos ou lutamos.

Nojento mesmo é ler os comentários nas redes sociais quando surgem ideias de se colocar um personagem LGBT em desenhos, afinal, assistimos desenhos, filmes, etc predominantemente heterossexuais a vida toda e nem por isso somos heterossexuais. A fragilidade heterossexual me dá nojo, aquele discurso de que crianças vão achar que está certo e isso faz mal para a formação delas é lgbtfóbico, justamente por não ser errado, justamente por não ser crime pessoas do mesmo gênero se amarem, um desenho assim só coloca a diversidade humana como algo natural e não uma aberração, continuar com esses discursos só contribui futuramente com uma geração de adultos lgbtfóbicos, que não sabem lidar com a diversidade de maneira digna e pessoas LGBT em sofrimento, se odiando por não ser “igual” ao que teimam em colocar como normalidade.

Deixo vocês com alguns clipes e logo volto, pois o próximo texto tá em fase de produção.






14 maio 2017

Depressão: reflexões sobre ineficiência do acolhimento pessoal e no sistema público de saúde.

Hoje vou sair um pouco do tema sexualidade e feminismo para falar sobre depressão, pois nessas últimas semanas a série “13 reasons why” e o jogo da baleia azul ganharam repercussão na mídia e nas conversas do cotidiano.

Sabe pessoas, um grande problema que acontece no Brasil é a ineficiência do nosso serviço público de saúde mental e quando a pessoa finalmente decide procurar ajuda fica perdida e se vê sozinha, não sabe aonde recorrer, pois além das pessoas não levarem à sério o sofrimento, existe o despreparo dos profissionais que atendem nas emergências públicas, lembrando que não é porque tem formação em enfermagem ou medicina que sabem fazer atendimento e acolhimento eficaz de pessoas em sofrimento mental, as vezes alguns profissionais até atrapalham nesse momento por agirem como o senso comum, desqualificando o sofrimento alheio e dando conselhos, misturando crenças religiosas que só resultam em mais sofrimento. O investimento financeiro em profissionais especialistas em saúde mental é baixo e a fila de espera é grande.

A pessoa que está precisando de ajuda fica por meses “esperando” o tratamento, lembrando que doenças mentais são urgência sempre, pode acontecer a piora do quadro de uma hora pra outra e a impressão que dá é que somente pessoas que estão com risco de morte ou que estão em crise psicótica muito acentuada são “prontamente” acolhidas com rapidez pelo sistema e mesmo assim, se são internadas as condições reais dos hospitais psiquiátricos não são um mar de rosas e fico me perguntando:

Como buscar ajuda em um sistema público que não acolhe a pessoa de maneira eficaz?

Tratamento em saúde mental real por muitas vezes é para quem tem dinheiro e pode pagar por terapia, médicos e medicações, é tudo muito caro atualmente. A lógica de falar para a pessoa buscar ajuda de um profissional fica difícil para quem não tem condições de pagar ou pagar um convênio para ter acesso, é meio que uma espécie de sadismo e a pessoa que não tem recursos financeiros pode piorar.

Se você realmente quer fazer algo de bom para uma pessoa que está em sofrimento mental, comece ajudando essa pessoa a buscar ajuda, talvez ela já tenha tentado e não tenha conseguido sozinha, talvez esteja tão frágil que está desistindo de viver, a parceria nessas horas é terapêutica também, só da pessoa não se sentir julgada e sentir acolhimento afetivo de verdade, já é de grande valia, num diagnóstico psiquiátrico é avaliada a questão da solidão que a pessoa vive e de como se distanciou do mundo, de seu isolamento social.

Talvez a grana do mês seja só para sobrevivência e uma dica que posso dar é: não fique nas fraseologias de efeito, não seja egoísta e desapegue de você mesmo, isso não é sobre você e suas questões, suas maneiras de resolução de problemas, suas crenças, suas opiniões, isso é sobre ser empático e proativo, pois no final, ser egoísta só afasta a pessoa e piora o estado dela, lembrando que a roupa que te veste, te veste e não veste as outras pessoas. Renato Russo em outro contexto ilustra ironicamente na música “mais do mesmo” uma resposta para esse egoísmo:

“Ah! Bondade sua me explicar com tanta determinação, exatamente o que sinto, como eu penso, como sou. Eu realmente não sabia que eu pensava assim”.

Imagine você passando um período bem difícil da sua vida, que você não está dando conta de nada e que nada faz sentido, você sozinho não consegue se ajudar e quando você busca alguém para te ajudar, o rechaço vem estraçalhando a alma com dizeres de: “não chora”, “isso vai passar”, “é só uma fase, você consegue superar”, “você já tentou ser mais positivo?”, “está faltando Deus na sua vida”, “você é muito dramático, nem é tão sério assim”. Imagine você não ter consciência do que está acontecendo e todos à sua volta não conseguem enxergar também e te desqualificam por isso, você está tão fragilizado que se sente um peso para tudo e todos. O simples ato de levantar da cama é a tarefa mais difícil do dia, o corpo dói, o cansaço físico e mental te consome e você se sente fraco e inútil.

Algumas pessoas recorrem ao álcool ou às drogas ilícitas para tentar preencher esse vazio atormentador, o que antes era para uso recreativo, passa a ser uma maneira de viver, acreditam que assim é mais aceitável, pois sentem vergonha de sua condição e não conseguem se enxergar como doentes, pioram o quadro de sofrimento mental.

Depressão não é só tristeza, não é aquela dor cotidiana que te ajuda na resolução de problemas, não é uma fase triste, não é o estado de preocupação que temos em vários momentos da vida, não é brincadeira.  Depressão é um estado de paralisia mental misturada com ansiedade que gera apatia a tudo, é a vida perder o sentido, o sabor e tudo torna-se desesperador ao mesmo tempo sem gosto, é o desprazer extremo, é exaustão mental, é uma sensação de vazio tão grande que a pessoa é sugada para uma espécie de limbo mental, é a necessidade de sumir do mundo e de você mesmo, é risco de morte.

Aí de um mês para cá a temática surge bem forte na mídia e ainda existem pessoas que acreditam que não se deve falar nisso, que não devemos discutir temáticas como suicídio, depressão e transtornos mentais, que essa não é a solução, que jogar para debaixo do tapete é o melhor que fazemos, só que não! Temos que trazer esse debate para todas as esferas sociais, deve-se debater exaustivamente tais questões, para que se modifique a forma de se pensar as doenças mentais e para se pensar formas efetivas de tratamento e é justamente trazendo à luz essas discussões que conseguimos modificar a realidade, evitar esse diálogo é ignorar e continuar silenciando milhares de pessoas que atualmente sofrem e precisam de ajuda, dialogar é uma maneira de acabar com o preconceito.

Desejo muito venham mais séries como a “13 reasons why” e que o mundo se torne um lugar mais empático e acolhedor, deixo vocês com algumas músicas e logo volto com outro texto, que já está em andamento. 






17 abril 2017

Cuidado com o que a coletividade te faz pensar que é bom!

Olá pessoas, tudo bom com vocês?
Faz mais de um mês que não posto textos novos, mas como disse anteriormente, estou cheia de atividades e fica muito difícil me concentrar da mesma forma que era antes.

Semanas atrás estava rolando uma propaganda sobre um creme de estrias que dizia que 90% das mulheres têm estrias e foi impactante isso, pois se somente 10% das mulheres não têm, quer dizer que isso é algo natural do gênero feminino e a mídia se apossou de uma característica com intuito de lucrar em cima, utilizando da baixa autoestima corporal, demonizando algo que não deveria ser visto dessa maneira e sim como algo natural, afinal, homem quando têm cicatriz, sente até orgulho da marca em seu corpo e nem por isso são bombardeados o tempo todo com propagandas desmerecendo seus corpos, enfim, desse ponto em diante fiquei inquieta e comecei questionar algumas imposições sociais que não são nenhum pouco saudáveis, vou exemplificar nesse texto com dois fatos reais que coletividade colocava como normal e saudável para as mulheres antigamente.

O primeiro é sobre o pé flor de lótus que virou tendência no início do século X na China, que nada mais é que enfaixar os pés das mulheres a partir dos cinco anos de idade, com ataduras fortemente apertadas o suficiente para quebrar os ossos e arqueá-los, deformando os pés e interrompendo o crescimento de maneira natural. Essa tradição era passada de geração em geração e o maior objetivo era atrair o sexo oposto e conseguir se casar, inclusive as mulheres sentiam orgulho da prática.
Os pés flor de lótus eram tidos como eróticos para os chineses, pois a forma final era tida como uma segunda vagina e o jeito como a mulher, com toda a dificuldade de se locomover, lembravam uma flor de lótus ao vento e esse “costume” era comum na Coréia, na Indonésia, no Tibete, no Japão e em outras localidades da Ásia e foi abolido em 1949 ainda bem, mas ainda existem mulheres vivas que passaram por essa torturante deformação que a coletividade pregava como saudável e necessária.

Não pensem que é só na China que ocorreram atos macabros com mulheres em nome de uma coletividade injusta e machista, aqui no Brasil antigamente em algumas regiões como em Santa Catarina, era costume o pai pagar a extração de todos os dentes da frente da noiva antes do casamento, pois assim ela não daria gastos com dentista posteriormente para o marido e para não machucá-lo fazendo sexo oral, enfim, ainda existem mulheres vivas com a boca sem os dentes, acho bem difícil um dentista aceitar atualmente extrair com esse propósito, dá até calafrios em pensar nesse tipo de crueldade.

Pessoas o que eu estou querendo problematizar nesse texto é a questão de que por muitas vezes em nossas vidas, principalmente nós mulheres, somos induzidas por essa voz social que diz que “para ser bonita tem que sofrer” ou "todo mundo faz, você deve fazer também" e não é bem assim que deveria ser.

Transformaram nossos pelos em sujeira, falta de higiene e sinônimo de cuidado, sendo que pelos são proteção natural do corpo, uma sessão de depilação com cera, que é a mais acessível para a maioria das mulheres, é dolorosa, causa foliculite, dentre outros efeitos colaterais que podem levar à consequências drásticas, daí a mulher vai se depilar com lâmina e enche de bolinhas e machucados nos dias seguintes.

Outras optam pela foto depilação e acabam no pronto atendimento, para drenar os cistos ocasionados pela prática. Gente, fiz uma vez o procedimento, pois meu ex colocou na minha cabeça que meus pelos eram horríveis, chegava a falar que eu era anormal, nunca mais eu faço, além de doer muiiiiito, algumas consequências perduram até hoje.

Nossos cabelos precisam seguir um padrão liso igual de pessoas orientais, no entanto a maior parte das brasileiras são de origem afro, não possuem essa estrutura capilar e se decidem assumir seu estilo natural, são tidas como desleixadas, pois o padrão prega que isso é o que se deve seguir e sofrem tratamentos químicos extremamente nocivos ao longo do tempo para manter esse padrão, com risco de desenvolver várias doenças, inclusive o câncer e no final tudo isso é pra parecer atrativa, ser aceita socialmente.

Outra prática coletiva diferente da estética e beleza física são os filmes pornográficos, que na maioria das vezes coloca a mulher como objeto de satisfação masculina, inclusive colocando violência como normalidade e o pior, a maioria dos homens querem fazer isso no cotidiano do relacionamento, acham bacana a mulher não ter prazer e o pior, sentem prazer na dor alheia e na servidão sexual feminina e fazem parecer que é normal, que devem aceitar pois “todo mundo faz isso”.


Pessoas pensem muito bem antes de aderir a algo na vida de vocês, no risco benefício e se isso realmente é necessário, pois a coletividade por muitas vezes é abusiva, agressiva e te faz pensar que sofrer é o padrão a ser seguido e não é, amar e ser dona de si mesma deveria ser, lembrem-se sempre “minha vida, meu corpo, minhas regras”.