17 maio 2017

Ativismo LGBT: As dores e as delícias de ser o que se é.

Hoje é o dia internacional contra a homofobia e faz um tempo que estou com vontade de escrever esse texto, mas sempre aparece algum outro tema, acabo não escrevendo e acredito ser necessário em vários sentidos, algumas pessoas que não possuem engajamento e empatia com as nossas causas, acabam distorcendo e por falta de conhecimento confundem a reação do oprimido com a violência do opressor e vira um rolo desnecessário e isso eu digo sobre o feminismo também, pois é mais fácil a má interpretação nesse quesito  e na verdade, ser feminista é lutar por equidade de gêneros e lutar por isso não é um mar de rosas em nenhum sentido, é romper paradigmas sociais cronificados e não é fácil.

Pessoas heterossexuais prestem atenção!

Não odiamos vocês, mas não suportamos mais sucumbir, renegar nossa natureza, viver escondidos, silenciados e muito menos suportamos viver nossos afetos clandestinamente por culpa de uma sociedade que não nos respeita, que tenta a todo custo nos colocar num molde doentio e acredita piamente que somos aberrações e não somos, aliás, nos orgulhamos muito de tudo isso, garanto que se as coisas evoluírem, não existe espaço para reação, pois a intolerância não será mais um risco pra nós, não se esqueçam do atentado de Orlando em Junho do ano passado, nas mortes injustas por transfobia, dentre as maiores atrocidades que ocorrem.

Sair do armário nesse mundão não é uma tarefa fácil, a vida não fica feliz totalmente, é uma luta diária, para quem se assumiu com mais idade como foi comigo, é uma luta constante com as antigas amizades, com alguns familiares que tentam colocar a gente no molde heterossexual, mesmo que seja indiretamente e machuca muito, com as novas pessoas é difícil também, pois confiar nas pessoas passa a ser tarefa difícil, a gente se protege, pois o mundo bate e nunca se sabe o limite da LGBTfobia de ninguém.

Vocês pessoas cis heterossexuais nunca vão imaginar como é, pois poucos de vocês conseguem se colocar no nosso lugar e ninguém aqui é doente, o que nos faz adoecer é o ato de não ter liberdade para ser e exercer o que se é e mesmo se fosse doença, não mereceríamos o que vocês fazem conosco de maneira direta, indireta ou inconsciente:

  • Em suas piadas de mau gosto, ninguém aqui é motivo de piada e nem motivo de vergonha, "LGBT não é bagunça";
  • Em seus discursos moralistas, afinal, temos nossa cultura diversa e adoramos tudo que envolve a liberdade do universo LGBT, vocês desrespeitam nossa cultura e vai ter afeminada, sapatão, travesti, lady, pintosa, caminhoneira, sim! Respeitem nossa cultura;
  • Em seus julgamentos desnecessários e maquiavélicos;
  • Em achar que porque é LGBT somos afim de qualquer pessoa e todo mundo que aparece é presa, que medo vocês sentem de nós, procurem um psiquiatra, o nome disso é megalomania;
  • Em colocar a gente como promíscuos e levianos;
  • Em suas agressões físicas (o Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo e o país que mais acessa pornografia com pessoas trans) e nas psicológicas que vocês não percebem, mas dói na alma;
  • Em nos objetificar, em achar que lésbica/bissexual está a serviço de fetiche masculino e casal heterossexual ou mulheres/homens que só querem experimentar, resolvam isso entre vocês heterossexuais;
  • Em sua forma de tentar nos controlar e botar nos padrões ansiosos e depressivos que vocês teimam em dizer que é o melhor que existe.
  • Em colocar nossa maneira de amar como algo sujo, errado, que só cabe aos filmes pornográficos e tem que ser escondido a todo custo;

Quando uma pessoa LGBT é ríspida e reage, não é falta de educação, é porque o limite de suportar a opressão acabou, queremos respeito, respeitamos o espaço de vocês, mas queremos o mesmo direito de ir e vir que vocês tem, não somos criminosos, não é uma opção sexual como muitos heterossexuais fetichistas acreditam, é orientação sexual, nasceu com a gente, a gente quer liberdade, não queremos sentir medo da hostilidade, de não conseguir emprego, de perder o emprego, de andar na rua com nossos amores, de estupro corretivo, assassinato, abusos morais e sexuais, depressão, é a velha lógica do instinto de sobrevivência ou fugimos ou lutamos.

Nojento mesmo é ler os comentários nas redes sociais quando surgem ideias de se colocar um personagem LGBT em desenhos, afinal, assistimos desenhos, filmes, etc predominantemente heterossexuais a vida toda e nem por isso somos heterossexuais. A fragilidade heterossexual me dá nojo, aquele discurso de que crianças vão achar que está certo e isso faz mal para a formação delas é lgbtfóbico, justamente por não ser errado, justamente por não ser crime pessoas do mesmo gênero se amarem, um desenho assim só coloca a diversidade humana como algo natural e não uma aberração, continuar com esses discursos só contribui futuramente com uma geração de adultos lgbtfóbicos, que não sabem lidar com a diversidade de maneira digna e pessoas LGBT em sofrimento, se odiando por não ser “igual” ao que teimam em colocar como normalidade.

Deixo vocês com alguns clipes e logo volto, pois o próximo texto tá em fase de produção.






14 maio 2017

Depressão: reflexões sobre ineficiência do acolhimento pessoal e no sistema público de saúde.

Hoje vou sair um pouco do tema sexualidade e feminismo para falar sobre depressão, pois nessas últimas semanas a série “13 reasons why” e o jogo da baleia azul ganharam repercussão na mídia e nas conversas do cotidiano.

Sabe pessoas, um grande problema que acontece no Brasil é a ineficiência do nosso serviço público de saúde mental e quando a pessoa finalmente decide procurar ajuda fica perdida e se vê sozinha, não sabe aonde recorrer, pois além das pessoas não levarem à sério o sofrimento, existe o despreparo dos profissionais que atendem nas emergências públicas, lembrando que não é porque tem formação em enfermagem ou medicina que sabem fazer atendimento e acolhimento eficaz de pessoas em sofrimento mental, as vezes alguns profissionais até atrapalham nesse momento por agirem como o senso comum, desqualificando o sofrimento alheio e dando conselhos, misturando crenças religiosas que só resultam em mais sofrimento. O investimento financeiro em profissionais especialistas em saúde mental é baixo e a fila de espera é grande.

A pessoa que está precisando de ajuda fica por meses “esperando” o tratamento, lembrando que doenças mentais são urgência sempre, pode acontecer a piora do quadro de uma hora pra outra e a impressão que dá é que somente pessoas que estão com risco de morte ou que estão em crise psicótica muito acentuada são “prontamente” acolhidas com rapidez pelo sistema e mesmo assim, se são internadas as condições reais dos hospitais psiquiátricos não são um mar de rosas e fico me perguntando:

Como buscar ajuda em um sistema público que não acolhe a pessoa de maneira eficaz?

Tratamento em saúde mental real por muitas vezes é para quem tem dinheiro e pode pagar por terapia, médicos e medicações, é tudo muito caro atualmente. A lógica de falar para a pessoa buscar ajuda de um profissional fica difícil para quem não tem condições de pagar ou pagar um convênio para ter acesso, é meio que uma espécie de sadismo e a pessoa que não tem recursos financeiros pode piorar.

Se você realmente quer fazer algo de bom para uma pessoa que está em sofrimento mental, comece ajudando essa pessoa a buscar ajuda, talvez ela já tenha tentado e não tenha conseguido sozinha, talvez esteja tão frágil que está desistindo de viver, a parceria nessas horas é terapêutica também, só da pessoa não se sentir julgada e sentir acolhimento afetivo de verdade, já é de grande valia, num diagnóstico psiquiátrico é avaliada a questão da solidão que a pessoa vive e de como se distanciou do mundo, de seu isolamento social.

Talvez a grana do mês seja só para sobrevivência e uma dica que posso dar é: não fique nas fraseologias de efeito, não seja egoísta e desapegue de você mesmo, isso não é sobre você e suas questões, suas maneiras de resolução de problemas, suas crenças, suas opiniões, isso é sobre ser empático e proativo, pois no final, ser egoísta só afasta a pessoa e piora o estado dela, lembrando que a roupa que te veste, te veste e não veste as outras pessoas. Renato Russo em outro contexto ilustra ironicamente na música “mais do mesmo” uma resposta para esse egoísmo:

“Ah! Bondade sua me explicar com tanta determinação, exatamente o que sinto, como eu penso, como sou. Eu realmente não sabia que eu pensava assim”.

Imagine você passando um período bem difícil da sua vida, que você não está dando conta de nada e que nada faz sentido, você sozinho não consegue se ajudar e quando você busca alguém para te ajudar, o rechaço vem estraçalhando a alma com dizeres de: “não chora”, “isso vai passar”, “é só uma fase, você consegue superar”, “você já tentou ser mais positivo?”, “está faltando Deus na sua vida”, “você é muito dramático, nem é tão sério assim”. Imagine você não ter consciência do que está acontecendo e todos à sua volta não conseguem enxergar também e te desqualificam por isso, você está tão fragilizado que se sente um peso para tudo e todos. O simples ato de levantar da cama é a tarefa mais difícil do dia, o corpo dói, o cansaço físico e mental te consome e você se sente fraco e inútil.

Algumas pessoas recorrem ao álcool ou às drogas ilícitas para tentar preencher esse vazio atormentador, o que antes era para uso recreativo, passa a ser uma maneira de viver, acreditam que assim é mais aceitável, pois sentem vergonha de sua condição e não conseguem se enxergar como doentes, pioram o quadro de sofrimento mental.

Depressão não é só tristeza, não é aquela dor cotidiana que te ajuda na resolução de problemas, não é uma fase triste, não é o estado de preocupação que temos em vários momentos da vida, não é brincadeira.  Depressão é um estado de paralisia mental misturada com ansiedade que gera apatia a tudo, é a vida perder o sentido, o sabor e tudo torna-se desesperador ao mesmo tempo sem gosto, é o desprazer extremo, é exaustão mental, é uma sensação de vazio tão grande que a pessoa é sugada para uma espécie de limbo mental, é a necessidade de sumir do mundo e de você mesmo, é risco de morte.

Aí de um mês para cá a temática surge bem forte na mídia e ainda existem pessoas que acreditam que não se deve falar nisso, que não devemos discutir temáticas como suicídio, depressão e transtornos mentais, que essa não é a solução, que jogar para debaixo do tapete é o melhor que fazemos, só que não! Temos que trazer esse debate para todas as esferas sociais, deve-se debater exaustivamente tais questões, para que se modifique a forma de se pensar as doenças mentais e para se pensar formas efetivas de tratamento e é justamente trazendo à luz essas discussões que conseguimos modificar a realidade, evitar esse diálogo é ignorar e continuar silenciando milhares de pessoas que atualmente sofrem e precisam de ajuda, dialogar é uma maneira de acabar com o preconceito.

Desejo muito venham mais séries como a “13 reasons why” e que o mundo se torne um lugar mais empático e acolhedor, deixo vocês com algumas músicas e logo volto com outro texto, que já está em andamento.