27 dezembro 2016

Reflexões sobre associação livre, histeria, negação e feminismo.

Olá colegas, amigos e leitores!

Freud já fala há mais de 100 anos que conversar sobre nossas intimidades e dificuldades de maneira aberta é terapêutico, não só sobre aquilo que conversaríamos com os nossos melhores amigos, mas sim colocar para fora aquilo que você não falaria em voz alta nem para você na frente do espelho e quando Freud descobriu isso com a Anna O, conseguiu ajudar várias mulheres a elaborar o sofrimento psíquico ocasionado pela repressão social doentia daquela época.

No início do século 20, existia a enfermidade psíquica chamada Histeria que acometia geralmente mulheres e causava sintomas físicos/mentais como a cegueira, paralisia física, delírios, alucinações, dentre outros sintomas que os exames apontavam como impossíveis de acontecer, pois a pessoa acometida gozava de boa saúde física. No entanto essas pessoas sofriam e acabavam passando o resto da vida em manicômios ou trancadas em quartos, longe do convívio social.

Freud inicialmente descobriu que a utilização da hipnose, promovia o acesso aos conteúdos mentais que essas pacientes jamais falariam abertamente, pois eram carregados de pudor e culpa que reprimiam, recalcavam e deslocavam inconscientemente para sintomas físicos, pois devido à repressão e a sociedade conservadora da época, não puderam desenvolver a flexibilidade interna para elaborar tais pensamentos.

Com o tempo Freud descobriu a técnica de Livre Associação dos conteúdos psíquicos, ou limpeza de chaminé como apelidou a famosa paciente “Anna O”, em que a paciente teria a possibilidade de falar o que viesse à mente, sem medo de ser punida ou de sentir culpabilidade por tais pensamentos e desta maneira era promovido um espaço de diálogo sobre as inquietações mais íntimas, possibilitando a elaboração tais conteúdos.

Lembrando que naquela época, a sociedade era de extremo machismo, a mulher era oprimida de maneira mais severa que no momento atual.  Só o fato de desejar sexualmente, mesmo que inconsciente, já era motivo para a autopunição severa, ocorria a negação ao pensamento libidinal e sofriam por desejar, por medo do julgamento social e se puniam internamente por desejar, se aprisionavam em uma cadeia mental.

Atualmente a histeria não existe da forma como era antes, mas existem pessoas que desenvolvem espectros da doença, são as chamadas facetas histéricas, só que além disso, ainda existe a cruel questão conservadora em nossa sociedade com relação às mulheres (comunidade LGBTQ+ também), isso é preocupante, pois a partir do momento em que constantemente somos violentadas, agredidas, abusadas, amordaçadas e principalmente silenciadas por um mecanismo social sádico e invisível que cria, absolve, protege nossos opressores e nos faz inimigas e repressoras umas das outras, pode se considerar um terreno fértil para o desenvolvimento das principais psicopatologias de nossa época como a  síndrome do pânico (possui vários aspectos somáticos), depressão, transtornos de ansiedade e personalidade.

Em uma sociedade que impõe severamente que mulheres são destinas à subserviência patriarcal, ao recato, a objetificação corporal, ao enlouquecedor “equilíbrio” infantilizado (triste, louca ou má), ao prazer vinculado à servidão sexual ao homem (o conceito de virgindade impede a mulher de conhecer o próprio corpo) e principalmente à “polianisse”, sair desses padrões é quase um ato criminoso passível de punição social, bem pesado.

Outro fator é a massacrante cultura da “perfeição”, do padrão de beleza e comportamento “branco hétero cis” que a mídia enfia goela abaixo em todos nós, inclusive essa, o tempo todo faz o desfavor de romancear a violência de gênero, promove o ódio ao corpo, a baixa autoestima deixando o caminho livre para a automutilação, gordofobia, racismo, lgbtfobia.

Se somos constantemente oprimidos em nossa natureza sem a possibilidade de desenvolver a resiliência de maneira satisfatória, atrofiamos nossa espontaneidade e nos tornamos marionetes sociais mentalmente adoecidas por não suportar a dor da negação e viver uma vida vazia, muitos acabam dependentes de drogas (legais/ilegais) ou se escondem em umbrais psíquicos e armários cheios de poeira.

Pessoas desejo um 2017 recheado de desconstruções mentais e fortalecimento! Desejo também que consigam o fortalecimento necessário para resistir aos modelos sociais que tanto nos machucam no cotidiano. E pra finalizar, desejo que consigam desenvolver o olhar ao corpo sem sexualização, o clipe da Clarice Falcão mostra isso de maneira muito simples, ela “ahazouuuu” nessa movimentação, é de aplaudir de pé, pena que retiraram o clipe do ar.




26 dezembro 2016

Revistar/revisar sem dúvida é um ato de autoconhecimento.

Olá humanos!

Desde que comecei a escrever o blog em 2008 posto os textos e assunto encerrado, raramente volto em algum texto para releitura. Conversando com uma grande amiga uns meses atrás ouço assim “Rack quero muito que teu blog nunca acabe, que minha filha quando crescer possa ler” e isso ficou muito marcado na mente, admito que não lido muito bem com elogios, sou pessimista, mas esse em especial me fez ter vontade de colocar totalmente a casa em ordem e de lá pra cá tenho feito algumas alterações, dedicado mais tempo dialogando com as pessoas e pensando em novos conteúdos.

Ficar um ano sem insight de escrita foi torturante, não sei explicar, sentia como se existisse uma mordaça mental, a mente estava vazia, nada surgia, nada fazia sentido, totalmente escassa e improdutiva. Esse ano pude conviver muito com a diversidade em vários sentidos, me libertar de correntes que nunca foram parte da minha natureza, mergulhar de corpo, alma e coração em velhos mundos que sempre tive vontade de conhecer, só não tinha tido o privilégio da oportunidade, enfim, foi o melhor ano da minha vida.

Semana passada tomei coragem para encarar a revisão de todos os textos, foi fantástico fazer esse movimento, é como se fosse uma máquina do tempo (vários momentos me emocionei), revisar foi uma forma de autoconhecimento, lembrar de contextos passados, se alegrar com outras épocas, dialogar com a intimidade e principalmente se perdoar, se resolver em vários sentidos.

A questão da incoerência e do machismo nos textos antigos, eram meus maiores medos e não encontrei, consegui entender que o feminismo sempre existiu aqui dentro e no blog, a questão da equidade/diluição de gêneros também.

Discussões que atualmente estão sendo dissecadas já estavam presentes nos textos, só que as pessoas me chamavam de louca/puta por pensar assim e isso gerava um desconforto muito grande, solidão, uma culpa monstro por não me adequar aos padrões conservadores, mas a resistência já existia e a diferença atualmente é que não sinto mais culpa e o que os outros pensam ao meu respeito não é problema meu, tornou-se um fator de seleção, estou bem feliz e me sinto mais forte a cada dia que passa.

Pessoas, o melhor de toda a revisão foi de perceber que a autopunição é desnecessária e sim, existe muita beleza em nossa singularidade/subjetividade, deveríamos romper com o padrão da automutilação mental e valorizar mais nossos feitos, deveria ser padrão o amor próprio e o auto reconhecimento de nossas habilidades, todos temos uma pedra preciosa precisando de lapidação.

Bom esse texto foi mais um desabafo, o próximo vai girar em torno da associação livre (técnica psicanalítica), histeria e feminismo e já está quase finalizado, até sábado disponibilizo.



19 dezembro 2016

Vamos falar sobre demissexualidade?


Olá pessoas amadas do meu coração.


Hoje vou discorrer sobre um tema íntimo, talvez algumas pessoas vão se surpreender, mas o fato é que de uns anos pra cá tenho me respeitado nesse sentido, relutei muito para escrever esse texto, mas sim, hoje vou discorrer sobre demissexualidade. Não consigo escrever intimamente sobre os outros tipos de asexualidade, pois não pertenço ao espectro.

Afinal o que é Demissexualidade?

São pessoas que só conseguem sentir atração sexual por outras pessoas se existir ligação emocional. O espectro Demissexual está entre ser sexual (alossexual) e assexual, não significando distúrbio, incompletude sexual e que a atração sexual sem conexão emocional seja necessária para se ter uma sexualidade completa. Alguns fatores que não se pode confundir com a demissexualidade é que por não se tratar de uma opção, escolhas sexuais como casar virgem, se abster de sexo para não ser difamada, não tem nada a ver com a demissexualidade, justamente por serem opções.

Para uma pessoa demi é bem sofrido viver em um mundo descartável como o nosso, pois não nos atentamos muito aos aspectos estéticos, corporais como em geral as pessoas sexuais se atraem. Um sorriso, uma expressão, um posicionamento, um gesto são o bastante para chamar atenção e despertar a curiosidade de ver mais de perto, não a atração sexual em si, isso acontece com o tempo e de acordo com os nossos sentimentos, pode ser rápido ou demorar, não existe aquela coisa de olhar uma pessoa na rua e sentir vontade de fazer sexo.

A dificuldade maior é a cobrança social que impulsiona enxergar as pessoas como objeto de satisfação sexual, do ficar por ficar, do descarte. Sabe aquele “convite” cavalo de Tróia social de que para ser feliz de verdade precisamos ser sexualmente ativos? Essas máximas sociais grudam em nossa mente, só que a angústia sempre está presente, a gente se sente obrigado a compactuar, sentimos que somos deficientes e mesmo tentando remar contra a maré interna e não se levando a sério quando não se tem noção dessa condição, a angustia e a tristeza é horrível. Fiz dois anos de análise pra conseguir entender que é minha essência e em 2010 me compreendi demi biromântica e percebi o tanto que me violentei antes de entender, só fui saber o nome nesse último ano, estou mais pra homorromântica, o universo masculino perdeu totalmente o encanto.

Ser demi não tem nada em comum com puritanismo, com abstinência sexual  e nem que pessoas demi não sentem desejo, não se masturbam (algumas sim outras não), que somos bichos pegajosos e fofos, que somos reprimidos sexualmente, que relacionamentos com pessoas demi são isentos de relações sexuais, que necessariamente só nos relacionamos sexualmente com pessoas com o contrato de relacionamento firmado, que não conseguimos praticar o poliamor, que somos monogâmicos, a lógica é simples, a atração sexual por outras pessoas só ocorre verdadeiramente quando a mente alheia nos encanta a ponto de existir ligação emocional da nossa parte.

Existem pessoas que se sentem atraídas por corpos musculosos, por pés, a gente se sente sexualmente atraídos por pessoas quando realmente existe conexão afetiva recíproca ou não, e não do instinto primitivo como a maioria das pessoas, para elas a atração sexual é a causa e para nós é a consequência das vivências, simples assim.

O texto foi curto, mas denso e deixo o pedido para as pessoas que se identificam com essa condição, procurem se respeitar mais, a vida fica linda e mais gostosa de se viver, não exijam tanto de vocês, pressão interna e auto abuso só levam à tristeza e falta de satisfação. Deixo três músicas lindas ouvi algumas vezes escrevendo o texto, não achei uma em si que se refira ao tema.




10 dezembro 2016

A “broderagem” e a seletiva surdez/cegueira patriarcal.

Olá pessoas queridas!

Para facilitar o entendimento do texto peço que vocês assistam o vídeo abaixo:


Absurdo? Machistas? Escrotos? Homens malvados? Só que não queridxs!

Foi só um exemplo de silenciamento feminino comum do cotidiano, nada novo sob o sol, a única diferença é que o recorte foi editado, exposto para milhares de pessoas e aconteceu a empatia pela concorrente, poderia ter passado batido, pois é tão comum quanto beber água, é o chamado machismo velado e esses homens não são tão diferentes da grande parte da população masculina na atualidade em nosso país.

Existe a tendência social ao silenciamento e desmerecimento ao gênero feminino, que faz com que as mulheres sintam constantemente a sensação de implorar para serem vistas, ouvidas e respeitadas. A sensação gerada pelo silenciamento feminino é como uma mordaça mental, que gera exaustão, ansiedade, angústia e se reagimos somos taxadas de desequilibradas, mal amadas, mal comidas, pois mulher incomodada e inconformada com algo está errado, deu defeito, não está em seu juízo perfeito. Talvez por isso a guria do vídeo não reagiu de maneira mais incisiva, pois corria o risco ainda de ser colocada como louca ou teria sido mais massacrada pelos 3 participantes.

Nesse vídeo fica explicito a inequidade de gênero e a tal da “broderagem”, que nada mais é que o levante de parceria, vinculação, proteção e empatia, amor ao sexo masculino, uns pelos outros inclusive de maneira inconsciente, a extensão do clube do bolinha na fase adulta, no fundo eles queriam competir entre eles e tirar a mana de escanteio, como faziam na infância. Mulheres também reproduzem esse levante, só que na servidão e defesa ao universo masculino, rivalizando e controlando umas com as outras, a sororidade é algo muito recente e urgente.

Quando mulheres apontam algo, se mostram indignadas, emitem alguma crítica contrária, percebem algo de errado na situação, seja em contexto profissional ou pessoal no qual existam homens, precisam meio que se desculpar com certa delicadeza por pensarem de tal maneira e ainda assim correm o risco de serem ignoradas, ironizadas ou de acontecer uma onda de indignação e revolta por parte dos homens e das outras mulheres, só que quando tais situações ocorrem inversamente, a postura, o respeito, a forma de falar e se posicionar muda automaticamente.

Um exemplo da inequidade de gêneros é quando nós mulheres falamos da existência cultura do estupro e que todo homem é um estuprador em potêncial, que é necessário desconstruir, fortalecer as meninas, desconstruir a educação violenta dos meninos, trabalhar a igualdade de gêneros, pegamos números, explicamos minuciosamente, mas somos infinitamente massacradas, ironizadas, desrespeitadas, chamadas de feminazis e quando um homem escreve sobre tudo isso de maneira ainda misógina, ele é aplaudido por outros homens e mulheres(https://trendr.com.br/como-foi-transar-com-uma-vitima-de-estupro-9210eea52090#.pch5k3lqb).

As pessoas se assustam quando digo que homem só escuta homem e escutam seletivamente as mulheres, só fazem questão de ouvir quando existe algum interesse que os beneficie de alguma forma (sexual, “afetivo”, financeiro) e se não existe tal interesse, fingem que escutam, ignoram ou escutam parcialmente no caso de críticas, só que nesse caso em específico, fazem questão de manipular a situação ao seu favor, até que a mulher em questão acabe inclusive pedindo desculpas pelo erro dele.

Existem outros comportamentos masculinos naturalizados em nossa cultura que são explicitados neste vídeo, reafirmo que em geral são quase imperceptíveis socialmente e causam o silenciamento feminino. A revista Capitolina aponta alguns desses comportamentos no artigo “Glossário de termos do feminismo” (vou deixar o link no final)  

mansplaining: o termo, que vem do inglês, quer dizer algo como “explicação masculina”. Você logo vai se lembrar de algum exemplo de um conhecido seu, homem, tentando te explicar um assunto que você provavelmente domina mais que ele. É uma ferramenta também utilizada para o manterrupting.

manterrupting: do inglês “interrupção masculina”, é quando um homem constantemente interrompe uma mulher falando – geralmente pra fazer mansplaining ou o bropriating.

bropriating: que significa que um cara ganhou todo o crédito por expressar uma ideia que uma mulher já tinha falado há tempos, ou seja, ele se apropriou de algo que não foi originalmente pensado por ele.

gaslighting: que é quando uma pessoa tenta te convencer de que você está louca, paranoica e com isso, invalidar seus sentimentos. O gaslighting está geralmente associado ao relacionamento abusivo, sendo utilizado pelo parceiro para o controle da mulher”

Termino o texto deixando duas músicas da Sia (sou apaixonada nela, na peculiaridade que ela expõe e no ballet contemporâneo da guria do clip) e um vídeo do Porta dos Fundos sobre broderagem, se atentem ao clipe da música Big Girls Cry, bem forte.  


Glossário de termos do Feminismo: http://www.revistacapitolina.com.br/glossario-de-termos-feminismo/









24 novembro 2016

Ceder não é consentir e nem permitir

Olá amades!

Hoje venho com um assunto que no cotidiano é banalizado pela lógica desigual das relações entre os gêneros e isso recai em vários aspectos na vida das mulheres, mas vou me ater às relações intimas e afetivas, lembrando que esse molde se aplica em vários contextos, é só mudar o cenário, que o pano de fundo é o mesmo, ou seja, as relações de poder. Ressaltando que não estou me baseando em relações igualitárias e de respeito mútuo, estou escrevendo sobre injustiça e desigualdade social com o gênero feminino, então não me venham dizer que tudo depende, essa é mais uma maneira de calar o questionamento.


Muito tem se falado sobre cultura do estupro nesse ano de 2016 e com essas intermináveis discussões vem à tona a questão de que estupro não tem nada em comum com sexo ou libido exacerbada, mas sim com a necessidade de controle e poder masculina (não pego exceção para pensar o mundo, mulher faz sim, mas é exceção) e não se estende somente às pessoas desconhecidas, na maioria dos casos são pessoas conhecidas, familiares e cônjuges das vítimas que cometem tais atos e talvez por essa complexidade afetiva, pensar em uma solução para essa questão seja difícil, afinal não somos acostumados com a cultura da denúncia e muito menos com a cultura de proteção à vítima, sempre se acha uma brecha para culpabiliza-las.

O medo inconsciente masculino é a perda do poder patriarcal (falocentrismo) e da mulher, o medo é não ser aceita, amada, reconhecida e seus atos em geral, são revertidos e distorcidos socialmente numa constante que às levam a sentir culpa por tudo e por todos, inclusive quando estão certas, mas a insistência e manipulação patriarcal que não admite erros, mesmo quando não tem razão, distorce tudo e as mulheres crescem inseridas nesse contexto que amordaça a autonomia feminina, não permite a construção da autoestima sólida e se desenvolvem em uma cultura que exige que relevem inclusive sua autoestima em prol dos outros.

O universo masculino se alimenta da subserviência compulsória feminina, não os culpo, a cultura ensinou que é permitido e o “não” feminino por muitas vezes só funciona na irritação, na imposição, na braveza e mesmo assim somos colocadas como “revoltadinhas”, “bravinhas”, “barraqueiras”, “grossas”, “loucas”, o que desqualifica e desmerece demais nossa maneira de ser no mundo, paralisam nosso “não” ao mesmo tempo que nos responsabilizam/culpabilizam por tudo e como diriam Mc Carol e Karol Conka

Desde pequenas aprendemos
Que silêncio não soluciona
Que a revolta vem à tona
Pois a justiça não funciona
Me ensinaram que éramos insuficientes
Discordei, pra ser ouvida o grito
Tem que ser potente


O “não” das mulheres dentro das relações afetivas (ficante/namoro/casamento) para ser ouvido e respeitado depende muito do interesse masculino, no que querem extrair da situação e se observam que não vai rolar o que desejam, agem como desequilibrados, agredindo verbalmente/fisicamente, nos infantilizam, manipulam afetivamente as situações, fazem chantagens em prol do seu bel prazer ou rola a insistência, que nada mais é que uma forma de suprir a necessidade de manter o poder sobre o outro e não é uma forma de demonstrar amor ou interesse.

A insistência masculina é mais uma maneira de abuso e desrespeito às escolhas femininas, é bem aquela coisa assim “ah! Mas se eu insistir vai que eu consigo, não custa nada” e fazem drama, chantagem, vitimismo, só que esse “não custa nada”, custa sim! Custa a falta de respeito às decisões femininas, a integridade. Em alguns casos até acontece o que desejavam e a mulher acaba cedendo (não permitindo ou consentindo) e sucumbe, pois não suporta mais a situação.

Agora a modinha masculina para o estupro, é colocar “boa noite cinderela” na bebida das mulheres e acreditem, isso é mais comum do que pensam, pode vir de pessoas que você nunca imaginaria, cuidado mulheres, pois ainda vocês correm o risco de serem culpabilizada e responsabilizada por ter bebido, pois socialmente a mulher não teria que ter permissão para beber, se o fazem e dá merda, a culpa é delas, nunca do agressor.  

Esse desrespeito abusivo ocorre em vários níveis, desde o ficar em baladas, que a guria fala não e o cara fica ali no pé até que a mulher se irrita ou acaba cedendo ou quando ela bebe muito e o cara se aproveita da situação para realizar suas vontades, até o caso do estupro marital/conjugal, muito banalizado socialmente, que em geral a mulher toma a decisão, não quer ter relações sexuais, independente do que à motivou e o sujeitinho usa das maneiras mais sujas para desviar o foco ao seu favor, obter a satisfação pelo poder e mostrar que só ele pode tomar decisões e que a decisão dela não vale nada ou o “não” novamente cai em desuso e se transforma em doença (dor de cabeça).

Existe também a situação dos fetiches masculinos e a insistência e manipulação para que se concretizem. Um exemplo é o homem que tem fetiche por ménage e insiste constantemente para a parceira heterossexual realizar e ela não pode nem se sentir ofendida, pois é coisa de homem sonhar com isso. Só porque é um sonho dele e não dela, a vontade dele é colocada em primeiro lugar, ela não sentir atração por mulheres não é importante, mas se a parceira tem o mesmo desejo por homens, na maioria dos casos, eles não abrem mão da heterossexualidade deles e ainda se sentem ofendidos com a proposta, o risco de rolar violência psicológica é grande nessa questão, tanto pela manipulação afetiva como na reação à “ofensa”.

Tais situações diferem de quando um quer e a outra pessoa não está muito afim e acaba ficando com vontade, isso se chama estimulação e em uma relação igualitária, de empatia e de respeito mútuo, a pessoa pode dizer ”não” sem ter medo, receios, melindre, culpabilização, pois sabe que será ouvida e enxergada em suas questões íntimas e não precisa usar da força para ser ouvida, não precisa ficar na defensiva para ser respeitada.

Não é atoa que sempre toco na questão de fortalecermos e ensinarmos nossas meninas a gostarem de si, desenvolver a autoestima mental e corporal, desconstruir a questão da subserviência compulsória, desconfiar, se proteger e se colocar em primeiro lugar, pois a tendência é sempre colocar o homem como portador do discernimento de certo e errado. O nosso desenvolvimento como mulheres autônomas foi falho em vários sentidos e nós é que devemos saber o que é melhor pra nós mesmas e não aceitar menos do que isso, pois a “sofrência” é solitária, falar não e fazer valer o não é necessário, nem que pra isso role barraco e gritaria, com o tempo nos acostumamos com a autoproteção. Acredito que ninguém aqui quer ver as filhas nessas situações.

Termino o texto de hoje deixando duas músicas, uma da Lady Gaga sobre estupro e a mega empoderadora 100% Feminista.



17 novembro 2016

Reflexões sobre a psicose dos filmes românticos.

Olá pessoas, tudo bom com vocês?

Hoje vou discorrer sobre filmes que mostram estereótipos de gênero e início com duas “comédias”, pois o que sai da normatividade em geral é tido como bizarro e algumas piadas são uma forma de desmoralizar as pessoas, saciar o sadismo do telespectador, é engraçado, só que não. A ideia do texto começou ao assistir o filme “tratamento de choque”, aquele do Adam Sandler e Jack Nicholson, sabem? Assistam o trailer então:


Este comportamento implosivo que dizem ser prejudicial nele é exatamente um pouco de como nós mulheres somos domesticadas, entendem? O que é colocado como desvio mental para os homens, para nós mulheres é o cotidiano e se saímos um pouquinho desse padrão, a santa inquisição surge num passe de mágica, muito surreal. Inclusive na cena do avião, é assim sempre que discordamos ou reclamamos de algo, somos mal interpretadas e tratadas como doentes mentais o tempo todo.

Aí já mostro o oposto do filme “Tratamento de choque”, que é o “Maluca Paixão”, uma guria mega inteligente, ativa e de alma livre (amo a Mary), que diz o que pensa, é segura de suas vontades e é vista com repúdio, desmoralizada o tempo todo, mostrada como uma pessoa desesperada, algo que deve-se evitar, pois claro! Só ao Steve é permitido. Ele é o cara, só ele pode tomar atitude, só ele pode ser o galã, só ele sabe das coisas, e mulheres como a Mary, não merecem ser respeitadas e a colocam como desequilibrada no filme. Se fosse o oposto, ia ser mais um filme de comédia romântica, com um homem super interessante apaixonado pela guria. Mulheres como Mary, são repudiadas pelo exercito do padrãozinho, é preciso ser muito seguro para ter uma mulher fodástica dessas como parceira, pois mulheres assim não servem pra ser esposas e sim parceiras.


Pegando o gancho nas comédias românticas, a receita é sempre a mesma:
·        mocinha frágil e com baixa autoestima;
·        mocinho poderoso em algum sentido, com uma vida bacana;
·        mocinha precisando ser salva de alguma maneira;
·        mocinho foda que acaba fazendo alguma coisa básica ou bacana por ela;
·    mocinha fica com o mocinho que decide largar a “homenzice” e assumir/salvar a mocinha da solidão;

Ai você ouve a vida toda que isso é filme de “mulherzinha” em tom pejorativo e nota que homens detestam assistir, não é atoa! Isso não faz parte das preferências masculinas, aliás, é chato para eles, enjoativo (universo feminino é chato), pois amor romântico só está na psicose do que nos fizeram acreditar que existe, é mentira e não rola identificação da parte masculina, o amor romântico é só quando estão realmente interessados em tirar algum proveito da situação.

Tem algo muito errado aí pessoas, pois se homens mais empáticos, contidos e preocupados, são motivo de piada e tidos como doentes e mulheres mais ativas, inteligentes, parceiras como ridículas e desequilibradas, onde mora o diálogo e o respeito entre os gêneros? Se homens são condicionados desde a infância a gostar de temas diversos que não envolvem a delicadeza, o cuidado, o respeito ao universo feminino, a empatia e nos condicionam em filmes, contos de fadas que existem homens assim, pode até ser que existam, mas como ficam os relacionamentos entre os gêneros?

Tudo destoa, os reais e diversos interesses são contraditórios entre os gêneros e chego a pensar que esses homens mostrados em comédias românticas são homens “lésbicos”, dos poucos mais diluídos, ainda soltam farpas e a grande maioria deles não dão conta de abrir mão do narcisismo.

A identificação ocorre com padrões e valores introjetados socialmente em nós mesmos. Fomos condicionados e aprendemos a nos relacionar com mundo dentro de padrões e regras, nos identificamos e projetamos os valores justamente na maneira como queríamos ser recebidos, como acolhemos a demanda das pessoas e é esperado a reciprocidade de nossos atos, só que a realidade dos gêneros não é essa.

Os relacionamentos heterossexuais e bissexuais caem na esfera da contradição dos interesses, intolerância e apatia entre as partes e vira um papo de surdo e mudo, loucura total. Como diria Clarice Falcão na música “Capitão Gancho”

“Se o fato é que eu sou muito do seu desagrado
Não quero ser chato, mas vou ser honesto
Eu não sei o que você tem contra mim
Você pode tentar por horas me deixar culpado
Mas vai dar errado, já que foi o resto
Da vida inteira que me fez assim”

E para finalizar, dizem que gosto cada um tem o seu, mas a realidade da nossa época, a educação, a transgeracionalidade, a mídia impulsionam às tendências de nossas escolhas, não somos 100% livres, já que o mimetismo social e cultural é como um fluxo intenso que nos leva de forma inconsciente a “escolher” determinados padrões e as “escolhas” estão sempre pautadas dentro da normatização e recheadas de estigmas. A mídia dita às tendências de uma maneira agressiva e invasiva (não pergunta, invade) e fica difícil se localizar no que é realmente o eu, o outro e o que é imposto goela abaixo.




14 novembro 2016

5 filmes LGBT para se sentir em casa.

Olá pessoas fantásticas e incríveis!


Sabemos que o mundo é heteronormativo e que nem sempre somos representados dentro do contexto cinematográfico de uma maneira bacana e crescemos assistindo só filmes heterossexuais, então hoje vou trazer filmes para cada letrinha da sigla.


1 MILK – A voz da igualdade (lutas e direitos LGBT)

Esse filme trata-se da luta LGBT nos EUA e tem como protagonista a figura Harvey Milk (Sean Penn), o primeiro gay assumido publicamente a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos e que foi assassinado em 1978.

O cenário de liberdade sexual nos 70 era de total discriminação às pessoas LGBT e Milk acompanhado de seu parceiro afetivo Scott (James Franco), se mudam de Nova Iorque para São Francisco (CA) com a intenção de abrir uma loja de revelação fotográfica na rua Castro. Como naquele período da história, pessoas LGBT não eram bem vindas socialmente, mas Milk resiste na luta contra a discriminação e o preconceito.

Filme fantástico para conhecimento do início da luta e do orgulho LGBT nos 70 e para dar um gás na luta atual, afinal, resistir é uma maneira de ocupar nosso espaço socialmente.
  


2 Azul é a cor mais quente (Lésbicas/bissexual)


Filme francês sobre a descoberta da sexualidade na adolescência, foi baseado no livro (história em quadrinhos) que traz o mesmo nome do filme e conta a história de  Adèle, uma garota bissexual de 15 anos e Emma (Léa Seydoux), seu primeiro amor por uma mulher. Mesmo com todo preconceito e discriminação das pessoas conhecidas, Adèle se entrega por completo aos sentimentos por Emma.


3 Little Ashes (Gay/bissexual)

Na Madri de 1922, mora um sentimento de luta pela revolução cultural, mas também de repressão e instabilidade política no período que antecede a Guerra Civil Espanhola. Neste cenário o jovem e excêntrico Salvador Dalí (Robert Pattinson), com 18 anos na época, inicia os estudos na faculdade com intuito a se tornar um grande artista. Ao conhecer o poeta revolucionário Federico García Lorca (Javier Beltran) e o Luis Buñel (Matthew McNulty), procuram se divertir e expressar a liberdade artística. No entanto, a intima e afetiva relação de Dalí e Lorca é desafiada por ambições, pela sociedade da época e pelo amor à Espanha. Mostra o período em que Lorca participava grupo de teatro chamado La Barraca, que percorria pequenas cidades da Espanha para disseminar a arte entre a população que não tinha acesso à cultura.


Não recomendo assistir pelo Netflix, retalharam o filme com tantos cortes e perde-se todo o contexto da história de Dalí e Lorca.


4 A Jovem y Aloucada (Bissexualidade feminina)


Conta a história de Daniela (Alicia Rodríguez), uma adolescente rebelde que cresceu em uma família evangélica, em Santiago (Chile). Daniela encontra como válvula de escape do seu cotidiano conservador, se aventurar sexualmente e depois relatar tudo em seu blog (filme foi baseado no blog dela de verdade). Após excessos conforme a lógica conservadora, seus pais a castigam e Daniela passa por profundo auto questionamento existencial.


5 Tomboy (TRANSEXUAL)


O filme explicita a temática da transexualidade infantil, mostrando a vida de Mikael, um garoto de 10 anos, que nasceu Laure e ao se mudar para a nova casa vê a oportunidade de vivenciar a vida da maneira que se sente bem, que se reconhece como pessoa. Se apresenta aos novos colegas como garoto, participa das brincadeiras, descobre seu primeiro amor por uma garota e se vincula fortemente à sua irmã mais nova que é a única da família que sabe a realidade do irmão. Filme de temática delicada, que mostra tanto a realidade de uma criança trans (conflitos, aceitação da identidade de gênero e sexualidade) e das dificuldades de entendimento por seus familiares, amigos e sociedade. Acredito que esse filme deveria ser assistido por todas as pessoas.


Finalizo o texto de hoje pedindo desculpas às mulheres transexuais por não trazer nenhum filme sobre vocês. 

26 outubro 2016

Papéis de gênero e suas armadilhas na infância: a fragilidade feminina não aguenta dar mais biscoito ao patriarcado.

Olá pessoas, tudo bom?

Hoje venho novamente discorrer sobre papéis e comportamentos de gênero, sei que é sofrido adotar posicionamentos libertários e contribuir para o rompimento de costumes naturalizados em 5 mil anos, mas é necessário entender determinados aspectos sociais e necessário manter-se firme.

Desde que se descobre o sexo do bebê dentro do ventre, o ideário social invade o útero e determina os papéis de gênero, sendo que aos meninos exige-se que sejam fortes, ágeis, independentes, viris e às meninas que sejam donzelas, dependentes, companheiras, delicadas e frágeis. 

As brincadeiras dos meninos são violentas desde a tenra infância, seu universo lúdico combatente/estratégico é elogiado e reforçado, os desenhos infantis (Super Homem, Homem de Ferro, He-man, Capitão América, Comandos em Ação) e as áreas masculinas das lojas de brinquedos são um universo infinito de preparo para o mundo.Meninos na infância podem brincar e sonhar em ser super-herói, motoristas/pilotos do que quiserem (caminhão, carro, ambulância, trem, nave espacial), mecânicos, fuzileiros, carpinteiros, ninja, astronautas, arquitetos, policiais, pilotos de avião, cientistas, jogadores de futebol, bombeiros dentre infinitas profissões.

No cotidiano seus corpos, suas ogrices e o que vem do ser menino é adorado, inclusive quanto mais feder o “pum” melhor é, quem arrota todas as letras do alfabeto é campeão, quem bate mais forte é o mais aplaudido e temido com admiração, o vencedor de cuspe à distância também, quem dá mais embaixadinhas com a bola e faz um drible bem feito também é admirado, sem  falar dos jogos de videogame, meninas não tem vez nesse universo.

Meninos não brincam com temáticas como contos de fadas, na fantasia masculina existem monstros, alienígenas e eles não brincam de salvar princesas, não brincam de príncipes encantados protetores, no máximo eles são o exercito vitorioso da guerra ou a polícia que prendeu o bandido. A paternidade e o cuidado com o lar não estão como temáticas de suas brincadeiras, aliás, seus bonecos não parecem em nada com o que serão seus futuros filhos/as, eles têm superpoderes, armas e o que menos existe na brincadeira dos meninos são brincadeiras empáticas. O futebol é uma grande arena de combate, o prazer da brincadeira masculina é muito diferente do que é permito ao universo feminino.

Os meninos aprendem a ter amor na defesa pessoal, amor aos seus corpos e aos seus iguais, a empatia é desenvolvida nos jogos de equipe, na batalha por defender território ou vencer desafios. A escuta ao próximo é desenvolvida nos planos e estratégias, na argumentação e no respeito que aprendem a impor aos demais, seu território é livre para a expansão da criatividade e desenvolvimento, pois socialmente é permitido e esperado, ou seja, meninos aprendem que o mundo é deles e as meninas só podem entrar nas brincadeiras se são permitidas, necessitam pedir licença de alguma forma e quando não são permitidas, a rejeição vem em piadinhas, puxão de cabelo, desmerecimento, dentre outras forma de rechaço, pois o ideário impõe que meninas são chatas, fracas, e frescas e assim, meninos são condicionados a pensar que  ser menina não é algo que deve-se ter respeito.

Quando estão em casa, aprendem que as mulheres são as únicas responsáveis pelo cuidado com a casa e a família, seja nos afazeres domésticos, como em caso de doenças. Eles são dispensados das obrigações da casa, podem brincar enquanto a mãe lava e passa sua roupa suja, não precisam se preocupar, pois sempre foi dito que menino é assim mesmo, se suja brincando e quanto mais se sujar, melhor e se existe uma irmã nesse contexto, será responsabilizada por aprender os afazeres e “aí dela se não aprender!”, será taxada de irresponsável e inútil por muitos anos, até que ela internalize toda a sobrecarga e passe a se culpar por não ser uma pessoa que merece ser respeitada como o irmão é. 

Meu irmão quando éramos pequenos tinha o macabro hábito de me interromper e atrapalhar nas brincadeiras, me azucrinar. Quando eu ia chamar meus pais, ele saia correndo na frente e distorcia toda a história e eu que estava quieta no meu canto brincando feliz, acabava como a vilã e ele como o coitadinho violentado pela irmã, isso foi a infância inteira, tirando o dia que eu tive que comer uma colher sal aos 5 anos, para provar pra ele que eu sou mulher, pois tinha cabelo curto. Hoje em dia até conseguimos nos dar bem por um período, mas infelizmente o cara que mais cometeu misoginia comigo foi ele, com meus pais consentindo e passando a mão na cabeça dele. 

 Socialmente a tendência do que se espera de uma mulher é baseada na premissa pueril e infantilizada de que mulheres são doces, frágeis, indefesas, subservientes, companheiras, afetivas e assim a educação e o estar no mundo desde o ventre, é norteado por esses padrões misóginos paralisantes.  Meninas sonham em ser princesas, bailarinas, boas mães, constituir família, serviçal do lar, médica, professora, modelo, cantora, maquiadora, cabeleireira. 

Na ala feminina nas lojas de brinquedos existem vários utensílios domésticos, bonecas, bichos de pelúcia, muito glitter (ADOROOOOOOO), pôneis, fantasias de princesas, tudo muito rosa, brilhante e cheiroso. Os desenhos que são destinados às meninas (Moranguinho, Pequeno Pônei, Princesas Disney) são adocicados, delicados, fofos, cheios de regras de comportamento misóginas, terras encantadas, arco-íris, príncipes que salvam e princesas indefesas, casamentos, filhos, etc.

As brincadeiras femininas são moderadas, calmas, pois devemos nos comportar, devemos ser delicadas, falar baixo (gritar e impor opinião/desejos não é coisa de menina). Crescemos ouvindo que não devemos dar trabalho, que lutar é coisa de menino, que menino é mau educado mesmo e a gente tem que ser superior e se o menino bater, não devemos aprender a se defender, devemos chamar os adultos e o que nos cabe é chorar e implorar ajuda e sermos fraquinhas.

As brincadeiras são casinha, maquiagem, de desfile de moda, de terra encantada de princesas e em nenhum momento podemos aprender a defesa pessoal, aliás, aprendemos que defesa é coisa de meninos como eu disse acima. Em nossa educação, aprendemos que não devemos chamar atenção, que isso pega mal e devemos ter compostura.

Essa compostura é exigida a vida inteira, culturalmente não somos levadas a sério, somos condicionadas a calar nossas iguais também e para quem foi domesticada nesses moldes, aguentar a pressão masculina torna-se um fardo pesado e doloroso, pois não aprendemos a reagir e os meninos não aprenderam a nos respeitar, afinal, toda essa doçura exigida socialmente é vergonhosa aos olhos masculinos. Aprendem desde pequenos que mulher é exagerada, chata, se faz de vítima, justamente porque eles aprenderam se relacionar de maneira violenta, opressiva e defensiva entre eles e não se esqueçam que mulheres não fazem parte do meio deles na infância e são basicamente obrigadas a entender e respeitar o jeito de ser dos homens.

No momento em que vamos colocar o ponto de vista contrário desde pequenas, quando discordamos, somos hostilizadas e descredibilizadas das piores maneiras e se reagimos também somos hostilizadas e colocadas como desequilibradas, pois ao olhar social a mulher tem que ser doce o tempo todo e o ficar “bravinha”, “falar alto” e impor seu pensamento, é visto como loucura, chilique, birra e merece apanhar e assim se repete o que vivemos desde a infância ao sair do eixo determinado, merecemos punição. Essa onipotência masculina ensinada desde o ventre, contribui e promove em grande parte a cultura do estupro, pois se mulheres não são respeitadas e homens possuem dificuldade em ouvir e respeitar o não feminino, como vão se proteger? 

Pessoas, nós mulheres não somos orientadas a desconfiar e observar criticamente o mundo, a doçura ao feminino é mais uma forma de dominação, ser encantadora não protege ninguém de ser violentada, pois nos infantilizando retiram nossas forças. A fragilidade só nos faz indefesas e mendigas da permissão social, precisamos reaprender a educar as crianças, a ensinar as meninas a se defender, ensinar autodefesa, empodera-las desde o ventre, iniciar uma cultura de respeito às pessoas ao invés de respeito somente aos homens.

Mulheres amadas, depois de entender certos aspectos das relações de gênero penso que é hora de parar a fabricação dos biscoitos, devemos deixar de pedir autorização social, deixar de lado essa culpa e esse peso, parar de tentar agradar a todos, parar com a subserviência compulsória e se libertar. Sinceramente, essa postura de cão abanando rabo por carinho e aceitação não te protege e na verdade te coloca como alvo fácil. Fizeram você acreditar que o teu papel no mundo é de conciliadora, psicóloga, faxineira, lata de lixo, médica, enfermeira, advogada, parceira e quando é você quem mais precisa, o abandono vem como um trem bala te esmagando e tudo o que você precisa para eles é “mimimi de mulher fresca, chorona, infantil e fraca” e a realidade te derruba e você não aprendeu a se defender e reagir à isso, use essa força exigida de ti para teu bel prazer por amor à você mesma.
  
Termino o texto deixando uma palestra da Tiburi e duas músicas lacradoras. 




13 outubro 2016

Love Bombing: o que acontece antes do gaslighting.

Olá pessoas lindas!

Não é de hoje que capto nos discursos dos grupos de apoio a vítimas de violência por parceiros íntimos algo muito comum no ciclo de violência/abuso que é o chamado fenômeno de “Love Bombing” (bombardeio de amor), que pode ser justamente um dos motivos para as vítimas continuarem nesses relacionamentos tóxicos e encontrarem muita dificuldade em romper, pois se trata de relacionamentos com pessoas narcísicas, pouco empáticas e egoístas.

Acredito muito que as pessoas entram em um relacionamento afetivo por prazer e sem vontade de sofrer abusos e é muito difícil observar/prever antes da vinculação real determinadas vivencias devastadoras que possam ocorrer com o passar do tempo e existe um porém nisso tudo, desde de pequenas somos condicionadas a baixa autoestima, a odiar nossos corpos, odiar tudo que é do universo feminino, a odiar nossas iguais e tudo que é de mulher é desmerecido e tido como fútil.

Certo dia conhecemos uma pessoa aparentemente legal, que de certa forma te faz pensar que você é diferente das outras mulheres, que sua forma de ser no mundo é valida, que adora conversar com você, pois em geral homens não se aproximam das mulheres sem algum interesse (sexual, financeiro, "afetivo") e você sim é parceira e merece essa parceria, enfim, essa pessoa te trata com muito respeito e de quebra te bombardeia com muito afeto e carinho, te procura, responde tuas mensagens, te elogia naqueles pontos que todo mundo rejeita e tua auto-estima vai a mil.

Nos primeiros momentos ou meses, muitas vezes esses homens narcísicos vão alegar que ninguém nunca os fez sentir desse jeito antes e que você é única para eles, vão traçar planos de vida rapidamente. De uma maneira muito lisonjeira, se transforma no seu ideal de amor, dizendo todas as coisas que  desejava ouvir, inclusive elogia teus defeitos e também vai partilhar os mesmos interesses, valores e sonhos.

No período de Love Bombing você vai ouvir frases como: “nossa como somos parecidos” (proposta de parceria), “você é diferente das outras, eu me sinto feliz com você, elas eram loucas, você não, é equilibrada e sabe conversar” (mexe como a rivalidade feminina), “nunca encontrei uma pessoa tão maravilhosa quanto você” (te coloca como única no universo, produto raro), “você fala demais, mas eu também sou assim e me sinto rejeitado, adoro conversar, não precisa se sentir mal por isso, estou aqui com você”, dentre outras frases, depende do que ele captou que te deixa triste.

Ele te faz amar o que você é, pois até o momento você se odiava de alguma forma e você se sente enxergada e acolhida em tudo, finalmente teu ideal de comédia romântica se concretizou, melhor droga que essa estão para inventar, tu fica entorpecida e dependente de tudo isso e é nesse momento que a coisa muda, quando ele se dá conta de que você realmente está viciada e é aí que tudo se inverte, pois, homens narcísicos são egoístas e não sentem prazer em se doar, tudo isso de antes dá muito trabalho para eles e mudam a atmosfera do relacionamento para o pânico, preocupação, incerteza e total estado de confusão e instabilidade, só que esta transformação pode ser rápida e potente ou lenta e traiçoeira.

O que antes era um bombardeio de amor e companheirismo cai por água abaixo e ele começa a te criticar e procura defeitos em tudo. As demonstrações de amor, respeito e carinho são substituídas por exigências e críticas infinitas, só que você já se viciou no passado e passa a se questionar o que aconteceu com aquela pessoa tão querida e se culpa por tudo (as críticas são formas deles manipularem a culpa para você), pois como pode uma pessoa tão fantástica ter mudado tanto? Só pode ser culpa sua, “mulher nojenta, incapaz e repulsiva”.

Nesse estado de confusão mental provocado pela pessoa narcísica é que se inicia o gaslighting e a necessidade da vítima de reverter a situação, que instintivamente passa a trabalhar mais e mais para tentar agradar o parceiro narcísico e restaurar o relacionamento de volta às suas origens, quando tudo era perfeito. Só que meninas, esse esforço todo nunca tem fim e a cada dia piora mais, pois, o desespero e a insegurança são alimentos para as pessoas narcísicas e assim como ele te viciou em amor, ele é tão viciado quanto você em ter controle das situações e sentirem-se superiores.

A vítima vai começar literalmente a sentir que está pisando em ovos no cotidiano do relacionamento e vai começar a evitar as brigas e explosões agressivas, só que também não tem fim e a cada dia piora mais e mais, até que já está enfraquecida psicologicamente, um trapo mental, justamente por se vincular ao passado fake e por acreditar que ele possa voltar a ser o protagonista da comédia romântica. Ai em alguns casos a vítima se questiona e até termina o relacionamento e acontece a fase de “lua de mel” do ciclo do relacionamento, o narcísico traz de volta o “love bombing” que mexe com a esperança da vítima e esta volta ao relacionamento como se nada tivesse acontecido e passa a acreditar novamente, só que mais cedo ou mais tarde ela cai novamente no buraco de enfraquecimento e assim podem-se passar meses/anos/décadas, abusos sexuais, físicos, suicídio, assassinato, dentre vários tons de qualquer cor que vocês escolherem.

Os amigos/filhos/familiares não entendem e não sabem como agir nessas situações, julgar de fora é mais fácil e pouco ajuda. Se você está passando ou conhece pessoas que passam por essas situações, somente a lei maria da penha não ajuda, é necessário o rompimento com apoio, é necessário que a vítima não entre mais em contato com o agressor, lembre-se, ela é vítima, está fraca e precisa de apoio e força, é mais ou menos como uma pessoa viciada em substância, o psicológico está em estado de abstinência e confuso, buscando ressignificações, qualquer aproximação com o agressor é o bastante para ela voltar nesse inicio, pois ele sabe muito bem como fazer e também está na abstinência dele, vai fazer de tudo pra saciar a necessidade de controle e se sentir superior, vai jogar sujo, inclusive esse período é alimento para ele também, para ele provar que manda na situação, que domina o território.

Precisamos ensinar nossas filhas e crianças a se gostarem mais, parar com essa ideologia de que mulher tem que ser submissa (bela, recatada e do lar), o empoderamento é necessário nessa sociedade conservadora que odeia tanto universo feminino e parar de culpar a vítima por tudo, inclusive de escolher um parceiro assim, pois ele sim é que deveria ser julgado e pagar por tudo o que faz com as pessoas, ser responsabilizado por seus atos maquiavélicos.

Bom termino texto deixando duas músicas para reflexão.
Algumas informações retirei do site: https://relationshipedia.me/2015/04/15/the-early-warning-signs-and-stages-of-a-toxic-relationship-everyone-should-know/

Indico também a página "Relações Tóxicas" do facebook:
https://www.facebook.com/RelacoesToxicas/?fref=ts