05 fevereiro 2017

Da cumplicidade à solitária servidão afetiva.

Olá pessoas!

Demorei para terminar esse texto, pois felizmente estou em um momento de muitas atividades e pouco tempo para escrever, possivelmente vou escrever com um espaço de tempo maior, mas podem acreditar, abandonar o blog novamente acho bem difícil, só se a mente travar de novo.

Certo dia conhecemos uma pessoa bacana, gente boa mesmo, carinhosa, parceira, que fecha contigo em vários sentidos, que de tão bacana te desperta vontade de fazer por ela também, que você quer fechar junto também, que te faz se preocupar com o mundo dela, pois ela se importa com você, quer teu bem e impulsiona você a ter vontade de continuar ao lado, de fortalecer aquele vinculo recém iniciado.

Te gera curiosidade em conhece-la, pois ali não é demonstrado perigo, descaso, é um momento de paz estar junto, mesmo com os problemas da vida, te faz acreditar que ali você pode ser você mesma, que o respeito e a empatia é quem dita as regras, enfim, você encontra alguém que realmente a cumplicidade e parceria podem ser exercidas, um porto seguro.

Tudo isso é atrativo e sedutor, um relacionamento com alguém que confiamos, respeitamos e principalmente que não precisamos usar a força (mental e física) para nos proteger, pois ali somos queridos e aceitos, o único medo é de perder tudo isso, como diria a Pitty na música “Medo”:“Só tememos por nós mesmos ou por aqueles que amamos, homem que nada teme, é o homem que nada ama” e aí queridxs é que entra a problematização, pois somos movidos de alguma maneira por necessidades e memórias afetivas.

O relacionamento segue o fluxo e as regras de convivência afetiva são estabelecidas gradativamente com o passar do tempo, afinal aos poucos vamos conhecendo a pessoa, suas incoerências, qualidades e inicialmente é normal a existência da preocupação em não dar mancadas e com o passar do tempo quando a insegurança do começo se dissolve, vamos nos despindo da nossa máscara de perfeição e inevitavelmente as mancadas vão acontecer, tanto da nossa parte, como da outra pessoa e o problema nesse ponto é como as partes lidam com as opiniões divergentes e frustrações.

Vamos expondo o que nos alegra, nos agrada/desagrada, o que não aceitamos de maneira alguma e quando a pessoa realmente se preocupa com o bem-estar do relacionamento, não vai insistir e forçar a barra, vai entender e respeitar ou vai tentar propor uma solução que seja viável às partes, isso se chama dialogo e companheirismo, o contrário disso é abuso.

Quando gostamos de alguém aprendemos a relevar algumas coisas desagradáveis, pois a pessoa tem várias qualidades e brigar por “besteira” não vale a pena (foi assim que nos ensinaram), só que aí mora uma questão muito séria e posteriormente o preço de relevar pode ser alto para nós mulheres, pois em geral os homens não deixam passar uma, não são muito adeptos desse relevar, com exceção do início do relacionamento, em geral eles resistem ao que desagrada e impõe a forma de ser deles, não tem muito diálogo e você corre o risco ainda de ser culpabilizada por algo que ele fez de ruim para você (gaslighting).

O maior problema surge quando uma das partes entende parceria como servidão, obediência e o que no início era só “não gosto, mas tudo bem, eu te respeito”, como no caso do desagrado da parceira ter amigos homens, gostar de sair sozinha, trabalhar, usar roupas curtas, negar sexo, dividir as tarefas domésticas, etc, deixam de ser só algo que desagrada e se tornam exigências, motivos de manipulação e chantagem emocional, transformando o relacionamento em um campo minado de pavor e terror psicológico, onde uma das partes é massacrada a ponto de perder a identidade e deixar pra lá seu direito de ir e vir em decorrência do enfraquecimento mental.

O que inicia com cumplicidade, parceria, empatia, se transforma em servidão afetiva, o que antes era um agrado, favor, escolha, decisão se torna obrigação e isso decorre da insistência, da imposição, do egoísmo, da cegueira e surdez seletiva, da manipulação e da chantagem que se torna intolerância e nada do que a outra parte tentar para ficar tudo bem, dá certo. O que antes era diálogo se torna um discurso verticalizado e autoritário, pois quem manda e tem força física é o homem.

Sabem porque não adianta esse diálogo? Pois a outra parte não está afim de resolução, te vê como inimiga, não está preocupado com o relacionamento, está seguro com a dependência da outra parte, está afim de impor o desequilíbrio ou na cabeça, a resolução está em silenciar, massacrar e calar, ou seja, deseja o poder e o domínio da situação, não a parceria, só que isso não é tão nítido e perceptível, envolve sentimentos, as vezes nem para quem está cometendo.

Outra coisa que acontece recorrentemente dentro de relacionamentos com homens narcísicos é que na cabeça deles só o que pensam tem validade, são os únicos dotados de inteligência e opiniões válidas e para piorar a situação, impõe isso como a única verdade absoluta no mundo, não escutam a outra parte e se tornam agressivos quando contestados, oprimindo até o ponto que a outra parte não consegue mais se impor, pois não existe espaço para isso, se cala. Se a parceira fala que o céu está azul e eles entendem que está roxo, vão massacrar até nocautear psicologicamente e a pessoa falar que estão certos e que o céu está roxo, mesmo não existindo isso.

A mulher em geral se torna dependente emocionalmente, pois se apega as pseudo qualidades do passado e as migalhas afetivas que nesse cenário são raras e no final quando acaba o relacionamento, se acabar, os narcísicos saem ilesos como se nada tivesse acontecido e as mulheres destruídas.

Me recordando de dois relacionamentos, toda vez que eu tinha algum problema e ia dividir não existia o acolhimento de fato, aquele momento de escuta, o que existia era mais momentos de dor, pois além da insegurança que eu já estava vivenciando, a outra parte fazia questão de humilhar, agredir, agir com estupidez como se tudo fosse um incomodo e eu era uma inútil mimada que estava fazendo drama. Quando a dificuldade era com eles, a trouxa aqui era acolhedora, carinhosa e cuidadosa, afinal não sou covarde como as outras partes, não ficava usando os defeitos, dessabores deles para humilhar, causar mais dores, tentava pensar junto e buscar resolução.

Desconfio que isso acontecia por falta de empatia, por falta de sensibilidade e principalmente por prazer, sim, quando não existe cumplicidade e respeito, buscar apoio no seu agressor é receber sadismo de volta, pois só o que eles pensam está certo e na cabeça deles merecemos ficar pior do que já estamos, nada novo sob o sol.

De tudo que aprendi nessa vida é que só existe cumplicidade em relacionamentos quando os objetivos relacionais são parecidos, aquela história de que os opostos se atraem é furada, o que dá certo mesmo é quando existe espaço para sermos completos e não completar um ao outro, quando os planos futuros são parecidos, quando a necessidade de dividir, doar e receber são parecidas, do contrário, quando é verticalizado só acontece desestabilidade e tristeza, afinal “O bom encontro é de dois”.

Deixo vocês com quatro músicas para a reflexão, volto logo pessoas de bem.