22 janeiro 2017

RESPEITO É BOM E EU GOSTO: Inquietações sobre “se dar valor e respeito” na lógica patriarcal.

Olá pessoas!
Hoje venho conversar com vocês sobre “pessoas de respeito” e “pessoas de valor”, pois existe uma grande diferença social ao significado de acordo com o gênero. Esses dias atrás estava lembrando da primeira vez que um “omi” me disse a seguinte frase:

“Raquel você tem que se dar mais ao respeito, se valorizar mais”

Eu com 14 anos na época não consegui compreender e perguntei o que era se dar o respeito e se valorizar, e o guri pensou que eu estava de piada e respondeu que eu sabia o que era, só que não! Eu realmente não sabia! Não fui educada na lógica da família tradicional patriarcal e cristã, a noção de respeito e valor era outra, não se aplicava aos papéis de gênero e tipo de comportamento baseado em genitálias.

Na minha ingenuidade acreditava que o respeito e valor de uma pessoa estava ligado ao ato de se respeitar nas vontades, claro que sem prejudicar o próximo. Entendia que se dar o respeito e se valorizar, era fortalecer a autoestima, era se gostar, que tinha algo em comum com escutar nossa essência, não se forçar a situações que podem ser nocivas, se respeitar era buscar o crescimento e evolução pessoal, enfim, era cuidar da gente com carinho e não deixar o mundo externo agredir, impondo quem somos e dando limites aos outros.

Com relação ao externo naquela época, uma pessoa de respeito e valor era aquela pessoa forte, que não tinha medo de ser o que é, que tem algo a oferecer e principalmente uma pessoa que era livre consigo mesmo. Com o tempo o pensamento foi modificando e hoje em dia acredito que todas as pessoas possuem seu valor, em sua singularidade sempre existe algo a dividir e aprender, o mundo é plural, diverso, complexo e infinito, eu que devo respeitar a subjetividade de cada um, desde que essa subjetividade não me destrua, simples assim, sem tentar controlar ninguém. Só que o mundo não é assim e hoje tenho noção do que é “o se dar ao respeito e valor” para o senso comum, mesmo não seguindo essa lógica doente que se apega aos papéis de gênero.

O que é um homem e uma mulher de respeito para a coletividade e o senso comum?

Ele é uma pessoa livre, que têm opiniões e liberdade de falar, agir da maneira que desejar, sempre existirá algo que promoverá sua ascensão social, não existe algo que realmente os puna dentro da heterossexualidade, inclusive sua sexualidade pode ser vivida de uma maneira livre, “não se paga o frete”. O julgamento só surge mesmo quando são gays ou seguem padrões que fogem da regra masculina e a comparação é sempre ao universo feminino, ou seja, se o cara é mais sensível, tímido, contido e afetivo, vai ser chamado mulherzinha pelos demais.

O homem de respeito é o cara narcísico, manipulador, conquistador que tem a autoestima elevada ou é agressivo por insegurança e socialmente está tudo bem ser assim, pois sua virilidade está se mostrando. No momento que consegue uma promoção no trabalho, nunca será julgado por sua sexualidade, não irão falar pelas costas que ele fez sexo para conseguir, sempre será por seu mérito. Quando é autoritário, ele é só autoritário e merece respeito, não vão falar que está louco, desequilibrado ou que falta de sexo, é só um cara de personalidade forte, não precisa nem pedir desculpa por ofender ou agredir, pois é o jeito dele ser assim e as pessoas que precisam aprender a respeitar a personalidade dele.

O cara de respeito é aquele que não abaixa a cabeça para nada, não demonstra medo, não implora, não se arrepende, supera as adversidades em um passe de mágica, segue em frente. Quando trai a parceira, não é julgado, inclusive as pessoas se esforçam para achar um motivo para culpa-la ou absolver o comportamento dele, pois libido e virilidade para homem é questão de honra.

Não precisa se preocupar com roupas, o medo real do cara de respeito é ser assaltado, enganado, pois medo de estupro e violência de gênero é coisa de mulher. O homem de respeito jamais vai se envolver emocionalmente com uma mulher que “não se valoriza ou não se dá ao respeito” de acordo com a iniquidade cultural de gênero, mulheres assim vão deixá-los envergonhados, humilhados, medo de ser chamado de otário pelas costas e devem ser tratadas como descartáveis, objeto sexual, não merecem ser respeitadas, servem só para ser amantes.

Uma mulher de respeito e valor em nossa cultura conservadora tem que ser apresentável, doce, agradável, contida, submissa, sorridente, suave, alegre, compreensiva, carinhosa, aceitar a subserviência como uma benção e não ser reativa. Sua forma de se vestir é julgada, mulher de respeito não usa roupa curta e não deixa nada à mostra, se ela se veste com mais ousadia não merece respeito, merece e está pedindo para ser estuprada, violentada e ser desmoralizada de alguma forma.

A mulher de respeito não possui vontades sexuais centradas nela, foi educada a não conhecer o corpo, não se masturba, mesmo porque masturbação sempre foi assunto proibido, o que foi ensinado sempre se volta à servidão ao prazer masculino (relações sexuais falocentradas) e se possui não é permitida a falar ou questionar, se as pessoas ficam sabendo, é condenada ao título de indecente/imoral, pois mulheres que realmente gostam de sexo e possuem liberdade de conversar sobre, de conhecer o funcionamento do corpo, é mulher que não merece respeito. Mulher de respeito é dama na sociedade e puta na cama, ou seja, garotas de programa são pagas para dar prazer e satisfazer os homens que às contratam, não para obter prazer das relações sexuais.

A questão da virgindade cristão heteronormativa, dá ao homem a responsabilidade de “ensinar” o caminho do prazer e como bons “educadores” narcísicos, ensinam que servidão sexual centrada neles é o verdadeiro prazer que cabe à mulher, e quando eles decidem dar prazer à mulher, é só quando estão dispostos ou acham que elas merecem. É só parar para pensar em quantas vezes o seu parceiro chegou ao orgasmo no último mês, quantas vezes você chegou, quantas vezes você teve que pedir isso e quantas vezes foi espontâneo da parte dele.

O comportamento docemente infantilizado é visto como sexy, instigante, pois isso mexe com o ideário de poder e controle masculino, ser frágil e indefesa é valorizado, mas não protege ninguém, aliás potencializa a vulnerabilidade, pois não é um papel que coloca limite e sair desse papel é algo desmoralizante para o sexo feminino.

Existe uma linha divisória invisível ao que nos desrespeita e o melhor, nosso corpo reage junto (nó na garganta), o complicado é como lidamos com tais situações, o melhor seria que não deixássemos ninguém invadir esse limite. Infelizmente quando alguém ousa ultrapassar, somos ensinadas a dialogar com quem nos desrespeita e não a nos defender, afinal, quem passa do limite saiu do contexto de diálogo e o que resta é autodefesa sempre.

Com o limite ultrapassado é pé no peito, diálogo com quem ousa ultrapassar limites não adianta e dá liberdade para a pessoa fazer pior, pois o limite não foi imposto, relevar só leva a mais invasão, absorver e engolir a dor a seco não vale a pena, enfim, impor limite é amor a si mesma, reagir e se defender é prevenção às possíveis dores psíquicas futuras que demoram muito tempo para a cicatrização mental e o melhor, a pessoa é obrigada a entender que dali não pode passar e isso sim é se dar ao respeito e a pessoa que sabe respeitar esse limite, é a pessoa de respeito e valor de verdade.

A sensação de pisar em ovos e de se controlar por medo, de “adivinhar” a reação do outro de maneira apavorada é a maior demonstração que você está respeitando mais a pessoa em questão, do que se respeitando, mantenha distância desse tipo de pessoa, pois relações de amizade, entre parceiros íntimos que exige isso de uma das partes, não são relações saudáveis, são abusivas e tóxicas, ninguém tem que entender o jeito abusivo, agressivo e destrutivo de ninguém, a outra parte que é descontrolada e apática que deveria rever sua forma de ser no mundo.

Para finalizar deixo duas músicas na voz bela e forte de Beth Carvalho, que falam de limites e potencialidades humanas, mais uma sobre o "macho de respeito" e a última que mostra o agressor fazendo drama e a vítima se defendendo. Ninguém deve ser "bonzinho" em situações de risco e injustiça, se cuidem com carinho, protejam o que existe de melhor em vocês, não joguem pérolas aos porcos, a vida é uma só.











08 janeiro 2017

Brasil e a triste realidade da violência de gênero, LGBTfobia e Transfobia.

Olá pessoas!

Hoje vou discorrer sobre a intolerância, machismo e a banalização relacionadas à violência de gênero e LGBTfobia, pois na virada do ano ocorreu o infanticídio e o feminicídio na cidade de Campinas-SP, já acordamos com essa triste notícia, fora os crimes de LGBTfobia e as mortes acarretadas pela transfobia que ocorreram em nosso país no ano passado, não tem como passar por cima e tratar como algo distante, brincadeira e vitimização, enquanto ocorrer crimes determinados por gênero, cor de pele, orientação sexual e identidade de gênero, estamos todos correndo risco.

A ONG Save the Children em seu relatório publicado no ano passado aponta que o Brasil é o pior país da América do Sul para ser menina, sendo que a Organização Mundial da Saúde aponta que nosso país apresenta a quinta maior taxa de feminicídios do mundo. O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública ao estimar que ocorreu entre 129,9 mil e 454,6 mil estupros no País em 2015, ou seja, estupros ocorrem um a cada 11 minutos, fora o que não é denunciado, não consigo imaginar como seria a taxa de incidência, pois existe o estupro marital, de incapaz, dentre outros tipos que não são denunciados e você aí pensando que feministas são loucas, se fazem de vítima, só que não! Lutamos pela equidade de gêneros.

É muito triste viver em um país onde a violência contra a mulher/pessoas LGBT, a cultura do estupro é real e o risco é grande de morrermos “assassinades” jovens pelas mãos dos homens. As estatísticas estão aí para comprovar isso, o assassino de Campinas-SP pontuou isso muito bem em sua carta.

O pior é que tais tipos de violência são banalizados em nossa cultura e só alcançam a comoção e a indignação real quando chega ao extremo do assassinato. Muitas mulheres denunciaram seus agressores antes do assassinato, pedem ajuda aos conhecidos/familiares e se vê sozinha, nada de efetivo é feito para protege-las, nem em âmbito jurídico, muito menos na rede pessoal de apoio da vítima.

Existem várias maneiras de deslegitimar e colocar em risco as vítimas, um exemplo disso são discursos como: “no meio de marido e mulher não se mete a colher”, “é só briga de casal, daqui a pouco eles voltam”, “é só coisa de ex namorada dramática com ódio que fica desmoralizando o coitado do cara”, “que se faz de vítima” e “já deviam saber que homens são assim mesmo, deveriam ter escolhido melhor”. 

As medidas judiciais são na maioria dos casos ineficazes pois demoram para ter uma resolução e a protetiva não adianta muito, é falha na forma que é aplicada em nosso país.

Crimes contra a mulher e pessoas LGBT ocorrem em todas as classes sociais e essa banalização também promove o que chamamos de culpabilização da vítima e absolvição social dos agressores, que por sua educação privilegiada e pela permissividade social nem ao menos desenvolvem satisfatoriamente o discernimento e o limite do que é violência de gênero, já dizia Renato Teixeira de uma maneira muito natural sobre o privilégio masculino na música Frete “Eu conheço as minhas liberdades, já que a vida não me cobra o frete”, muito fácil viver sem o pavor, viver a liberdade de uma vida sem culpa e julgamento.

Atualmente o Brasil também vive uma “epidemia” de intolerância e violência contra pessoas LGBT que vão desde as piadas cotidianas, intolerância e controle ao que sai do padrão heteronormativo cristão, à autoestima heterossexual que pensa que todo LGBT está afim, ao risco de sofrer violência por demonstrar amor em público, estupros corretivos, objetificação sexual (tratar da orientação sexual alheia como promiscuidade e fetiche) até assassinatos ocasionados principalmente pela cultura patriarcal doente e machista.

Conforme os dados coletados pela ONG Grupo Gay da Bahia (http://www.ggb.org.br/), nos últimos quatro anos e meio, mais de 1,6 mil pessoas foram assassinadas em território nacional por motivações LGBTfóbicas, representando praticamente uma morte por dia e pode ser considerado o país que mais mata pessoas Transexuais no mundo de acordo com o levantamento feito pela Europe’s Trans Murder Monitoring (TMM) Project e só pra constar, vocês sabiam que a expectativa de vida para as pessoas Trans em nosso país é em torno de 35 anos, a causa mortis é o assassinato e a falta de oportunidades por transfobia ocasionada pela intolerância à identidade de gênero dessas pessoas.

Saber dessas coisas não deve deixar a gente em depressão e apatia, o não saber é perigoso, conhecimento serve para nos deixar mais fortes e conscientes, o ano virou, mas o combate à violência precisa continuar em nosso cotidiano, na resistência, na sororidade, no pró-ativismo das pessoas parceiras e na rejeição à opressão diária. Volto a desejar um 2017 de muito fortalecimento e luta a todos, que o olhar crítico de vocês esteja bem aguçado para não deixar passar nada que agride a integridade de vocês “querides”.


Deixo uma música poderosa da Nina Simone que tem possuído minha alma e me representado muito, duas músicas da banda Hole que não saem do repete faz um mês, como não amar loucamente essas mulheres fantásticas?