06 agosto 2017

A vulnerabilidade e a insegurança social são banquete para reacionários

Olá pessoas queridas!

Hoje venho com um tema que não quer calar, depois que fiz a capacitação em Psiquiatria Forense, não consigo parar de pensar e alguns fatos políticos estão me incomodando muito e me faz pensar muito em certo possível candidato a presidência que faz questão de fazer barraco, agir com fascismo e desumanidade, que surta em frente às câmeras, desrespeita todos que discordam dele, principalmente com as mulheres e pessoas LGBT+ é agressivo sádico e irônico o tempo todo, faz adoração aos torturadores da ditadura militar e o pior, ganha admiradores aos baldes com essas atitudes, chamam até ele de mito.

Lembro quando o filme Tropa de Elite estourou cinemas e a personagem do Capitão Nascimento foi ovacionado e idolatrado pela população, se vocês lembrarem, vários jargões saíram do filme, era comum ouvir as pessoas dizendo com prazer “pede pra sair”:


 E no período do filme Cidade de Deus a frase clássica do Zé Pequeno, aliás, um dos melhores filmes nacionais que mostra a mente de um psicopata grave de maneira muito realista:



Trouxe essa reflexão toda pra entrar nos aspectos do perigo da vulnerabilidade social, pois a baixa autoestima social (complexo de vira-lata), fragilidade e insegurança fortalecem figuras como estas citadas acima, afinal, o medo do desemprego, violência, falta de saúde é lucro para quem está no poder e utiliza deste para benefício próprio.

No período pré-ditatorial aconteceu uma campanha massiva de segurança nacional, de que se houvesse a intervenção militar e nosso país ficasse sob a gerência dos militares, os problemas estariam resolvidos e só assim o país entraria na tão sonhada estabilidade. A grande massa acreditou nisso piamente e o país caiu em um período obscuro, de censura, a liberdade de ir e vir foi tolhida e só se sabia do que eles permitiam.

A adoração ao estereótipo do macho alpha, ao grande pai “justiceiro” e punitivo, gera a falsa sensação de segurança social e o que grande parte da população enxerga por falta de informação, de conhecimento de seus direitos (ainda acho que deveríamos ter uma disciplina nas escolas sobre a constituição) é que essas figuras são salvadoras da pátria, vão trazer a “ordem e o progresso” para o país, só que não é isso que acontece, essas figuras são sádicas e não estão nem um pouco preocupadas em melhorar a situação do país, não estão preocupadas em emergir as camadas mais miseráveis e muito menos na estabilidade econômica.


Uma pátria fragilizada pela ignorância, por um estado criminoso que não fornece o básico e nega-se a governar em prol da população, fica a mercê de pessoas opressoras, pois sem o fortalecimento social, qualquer um com roupa bonita, uma boa equipe de marketing e discurso imediatista, ganha a atenção e a adoração popular, como no caso da população de rua que vive em São Paulo, que seus pertences foram saqueados pela atual prefeitura, só pra mostrar que algo está sendo feito.

A população tem desprezo por essas pessoas, a população de rua na opinião dessas pessoas são desprezíveis, causa incomodo, é tudo pobre, sujo e vagabundo, no fundo queriam jogar essas pessoas no lixo ou que fosse permitido fuzilar a população de rua, pois o poder não é só com os que governam, existem as relações de micro poder e o ato de oprimir/punir quem está abaixo dos privilégios, frágeis/vulneráveis é cultural.

O que reina é a meritocracia, manifestações em prol do bem comum é coisa de vagabundos e sim, se por um lado existe a baixa autoestima social, por outro a insegurança social também estimula o estado bélico, desumanização das relações humanas e a mesma população que se sente segura com fascistas no poder, também age com sadismo entre si e com os menos favorecidos.

Para finalizar, o que os fascistas, conservadores e machistas dizem ser a “geração mimimi”, Leandro Karnal se refere como a “fase de celebração” (http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-tendencias/noticia/2016/09/o-mundo-contemporaneo-nas-reflexoes-agudas-de-leandro-karnal-7482021.html)

“O medo do fascismo no passado era o medo de rebaixamento social. O esteio do fascismo é o medo social. À medida que comportamento alternativos eram proibidos - mulher não votava, homossexuais eram contra a lei e negros não tinham direito – havia tranquilidade do pensamento conservador. Depois veio a fase da tolerância. Hoje nós vivemos a fase da celebração. Existir um 8 de março, dia internacional da mulher, um 28 de junho, dia do orgulho gay, e um 20 de novembro, dia da consciência negra, existir um aparada do orgulho gay, existir um feriado de Zumbi quase nacional, faz com que velhos medos não aquietados ressurjam: o medo sobre o feminino, a misoginia, é o medo mais estruturado e antigo e sólido de todos, renasçam”
  







17 maio 2017

Ativismo LGBT: As dores e as delícias de ser o que se é.

Hoje é o dia internacional contra a homofobia e faz um tempo que estou com vontade de escrever esse texto, mas sempre aparece algum outro tema, acabo não escrevendo e acredito ser necessário em vários sentidos, algumas pessoas que não possuem engajamento e empatia com as nossas causas, acabam distorcendo e por falta de conhecimento confundem a reação do oprimido com a violência do opressor e vira um rolo desnecessário e isso eu digo sobre o feminismo também, pois é mais fácil a má interpretação nesse quesito  e na verdade, ser feminista é lutar por equidade de gêneros e lutar por isso não é um mar de rosas em nenhum sentido, é romper paradigmas sociais cronificados e não é fácil.

Pessoas heterossexuais prestem atenção!

Não odiamos vocês, mas não suportamos mais sucumbir, renegar nossa natureza, viver escondidos, silenciados e muito menos suportamos viver nossos afetos clandestinamente por culpa de uma sociedade que não nos respeita, que tenta a todo custo nos colocar num molde doentio e acredita piamente que somos aberrações e não somos, aliás, nos orgulhamos muito de tudo isso, garanto que se as coisas evoluírem, não existe espaço para reação, pois a intolerância não será mais um risco pra nós, não se esqueçam do atentado de Orlando em Junho do ano passado, nas mortes injustas por transfobia, dentre as maiores atrocidades que ocorrem.

Sair do armário nesse mundão não é uma tarefa fácil, a vida não fica feliz totalmente, é uma luta diária, para quem se assumiu com mais idade como foi comigo, é uma luta constante com as antigas amizades, com alguns familiares que tentam colocar a gente no molde heterossexual, mesmo que seja indiretamente e machuca muito, com as novas pessoas é difícil também, pois confiar nas pessoas passa a ser tarefa difícil, a gente se protege, pois o mundo bate e nunca se sabe o limite da LGBTfobia de ninguém.

Vocês pessoas cis heterossexuais nunca vão imaginar como é, pois poucos de vocês conseguem se colocar no nosso lugar e ninguém aqui é doente, o que nos faz adoecer é o ato de não ter liberdade para ser e exercer o que se é e mesmo se fosse doença, não mereceríamos o que vocês fazem conosco de maneira direta, indireta ou inconsciente:

  • Em suas piadas de mau gosto, ninguém aqui é motivo de piada e nem motivo de vergonha, "LGBT não é bagunça";
  • Em seus discursos moralistas, afinal, temos nossa cultura diversa e adoramos tudo que envolve a liberdade do universo LGBT, vocês desrespeitam nossa cultura e vai ter afeminada, sapatão, travesti, lady, pintosa, caminhoneira, sim! Respeitem nossa cultura;
  • Em seus julgamentos desnecessários e maquiavélicos;
  • Em achar que porque é LGBT somos afim de qualquer pessoa e todo mundo que aparece é presa, que medo vocês sentem de nós, procurem um psiquiatra, o nome disso é megalomania;
  • Em colocar a gente como promíscuos e levianos;
  • Em suas agressões físicas (o Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo e o país que mais acessa pornografia com pessoas trans) e nas psicológicas que vocês não percebem, mas dói na alma;
  • Em nos objetificar, em achar que lésbica/bissexual está a serviço de fetiche masculino e casal heterossexual ou mulheres/homens que só querem experimentar, resolvam isso entre vocês heterossexuais;
  • Em sua forma de tentar nos controlar e botar nos padrões ansiosos e depressivos que vocês teimam em dizer que é o melhor que existe.
  • Em colocar nossa maneira de amar como algo sujo, errado, que só cabe aos filmes pornográficos e tem que ser escondido a todo custo;

Quando uma pessoa LGBT é ríspida e reage, não é falta de educação, é porque o limite de suportar a opressão acabou, queremos respeito, respeitamos o espaço de vocês, mas queremos o mesmo direito de ir e vir que vocês tem, não somos criminosos, não é uma opção sexual como muitos heterossexuais fetichistas acreditam, é orientação sexual, nasceu com a gente, a gente quer liberdade, não queremos sentir medo da hostilidade, de não conseguir emprego, de perder o emprego, de andar na rua com nossos amores, de estupro corretivo, assassinato, abusos morais e sexuais, depressão, é a velha lógica do instinto de sobrevivência ou fugimos ou lutamos.

Nojento mesmo é ler os comentários nas redes sociais quando surgem ideias de se colocar um personagem LGBT em desenhos, afinal, assistimos desenhos, filmes, etc predominantemente heterossexuais a vida toda e nem por isso somos heterossexuais. A fragilidade heterossexual me dá nojo, aquele discurso de que crianças vão achar que está certo e isso faz mal para a formação delas é lgbtfóbico, justamente por não ser errado, justamente por não ser crime pessoas do mesmo gênero se amarem, um desenho assim só coloca a diversidade humana como algo natural e não uma aberração, continuar com esses discursos só contribui futuramente com uma geração de adultos lgbtfóbicos, que não sabem lidar com a diversidade de maneira digna e pessoas LGBT em sofrimento, se odiando por não ser “igual” ao que teimam em colocar como normalidade.

Deixo vocês com alguns clipes e logo volto, pois o próximo texto tá em fase de produção.






14 maio 2017

Depressão: reflexões sobre ineficiência do acolhimento pessoal e no sistema público de saúde.

Hoje vou sair um pouco do tema sexualidade e feminismo para falar sobre depressão, pois nessas últimas semanas a série “13 reasons why” e o jogo da baleia azul ganharam repercussão na mídia e nas conversas do cotidiano.

Sabe pessoas, um grande problema que acontece no Brasil é a ineficiência do nosso serviço público de saúde mental e quando a pessoa finalmente decide procurar ajuda fica perdida e se vê sozinha, não sabe aonde recorrer, pois além das pessoas não levarem à sério o sofrimento, existe o despreparo dos profissionais que atendem nas emergências públicas, lembrando que não é porque tem formação em enfermagem ou medicina que sabem fazer atendimento e acolhimento eficaz de pessoas em sofrimento mental, as vezes alguns profissionais até atrapalham nesse momento por agirem como o senso comum, desqualificando o sofrimento alheio e dando conselhos, misturando crenças religiosas que só resultam em mais sofrimento. O investimento financeiro em profissionais especialistas em saúde mental é baixo e a fila de espera é grande.

A pessoa que está precisando de ajuda fica por meses “esperando” o tratamento, lembrando que doenças mentais são urgência sempre, pode acontecer a piora do quadro de uma hora pra outra e a impressão que dá é que somente pessoas que estão com risco de morte ou que estão em crise psicótica muito acentuada são “prontamente” acolhidas com rapidez pelo sistema e mesmo assim, se são internadas as condições reais dos hospitais psiquiátricos não são um mar de rosas e fico me perguntando:

Como buscar ajuda em um sistema público que não acolhe a pessoa de maneira eficaz?

Tratamento em saúde mental real por muitas vezes é para quem tem dinheiro e pode pagar por terapia, médicos e medicações, é tudo muito caro atualmente. A lógica de falar para a pessoa buscar ajuda de um profissional fica difícil para quem não tem condições de pagar ou pagar um convênio para ter acesso, é meio que uma espécie de sadismo e a pessoa que não tem recursos financeiros pode piorar.

Se você realmente quer fazer algo de bom para uma pessoa que está em sofrimento mental, comece ajudando essa pessoa a buscar ajuda, talvez ela já tenha tentado e não tenha conseguido sozinha, talvez esteja tão frágil que está desistindo de viver, a parceria nessas horas é terapêutica também, só da pessoa não se sentir julgada e sentir acolhimento afetivo de verdade, já é de grande valia, num diagnóstico psiquiátrico é avaliada a questão da solidão que a pessoa vive e de como se distanciou do mundo, de seu isolamento social.

Talvez a grana do mês seja só para sobrevivência e uma dica que posso dar é: não fique nas fraseologias de efeito, não seja egoísta e desapegue de você mesmo, isso não é sobre você e suas questões, suas maneiras de resolução de problemas, suas crenças, suas opiniões, isso é sobre ser empático e proativo, pois no final, ser egoísta só afasta a pessoa e piora o estado dela, lembrando que a roupa que te veste, te veste e não veste as outras pessoas. Renato Russo em outro contexto ilustra ironicamente na música “mais do mesmo” uma resposta para esse egoísmo:

“Ah! Bondade sua me explicar com tanta determinação, exatamente o que sinto, como eu penso, como sou. Eu realmente não sabia que eu pensava assim”.

Imagine você passando um período bem difícil da sua vida, que você não está dando conta de nada e que nada faz sentido, você sozinho não consegue se ajudar e quando você busca alguém para te ajudar, o rechaço vem estraçalhando a alma com dizeres de: “não chora”, “isso vai passar”, “é só uma fase, você consegue superar”, “você já tentou ser mais positivo?”, “está faltando Deus na sua vida”, “você é muito dramático, nem é tão sério assim”. Imagine você não ter consciência do que está acontecendo e todos à sua volta não conseguem enxergar também e te desqualificam por isso, você está tão fragilizado que se sente um peso para tudo e todos. O simples ato de levantar da cama é a tarefa mais difícil do dia, o corpo dói, o cansaço físico e mental te consome e você se sente fraco e inútil.

Algumas pessoas recorrem ao álcool ou às drogas ilícitas para tentar preencher esse vazio atormentador, o que antes era para uso recreativo, passa a ser uma maneira de viver, acreditam que assim é mais aceitável, pois sentem vergonha de sua condição e não conseguem se enxergar como doentes, pioram o quadro de sofrimento mental.

Depressão não é só tristeza, não é aquela dor cotidiana que te ajuda na resolução de problemas, não é uma fase triste, não é o estado de preocupação que temos em vários momentos da vida, não é brincadeira.  Depressão é um estado de paralisia mental misturada com ansiedade que gera apatia a tudo, é a vida perder o sentido, o sabor e tudo torna-se desesperador ao mesmo tempo sem gosto, é o desprazer extremo, é exaustão mental, é uma sensação de vazio tão grande que a pessoa é sugada para uma espécie de limbo mental, é a necessidade de sumir do mundo e de você mesmo, é risco de morte.

Aí de um mês para cá a temática surge bem forte na mídia e ainda existem pessoas que acreditam que não se deve falar nisso, que não devemos discutir temáticas como suicídio, depressão e transtornos mentais, que essa não é a solução, que jogar para debaixo do tapete é o melhor que fazemos, só que não! Temos que trazer esse debate para todas as esferas sociais, deve-se debater exaustivamente tais questões, para que se modifique a forma de se pensar as doenças mentais e para se pensar formas efetivas de tratamento e é justamente trazendo à luz essas discussões que conseguimos modificar a realidade, evitar esse diálogo é ignorar e continuar silenciando milhares de pessoas que atualmente sofrem e precisam de ajuda, dialogar é uma maneira de acabar com o preconceito.

Desejo muito venham mais séries como a “13 reasons why” e que o mundo se torne um lugar mais empático e acolhedor, deixo vocês com algumas músicas e logo volto com outro texto, que já está em andamento. 






17 abril 2017

Cuidado com o que a coletividade te faz pensar que é bom!

Olá pessoas, tudo bom com vocês?
Faz mais de um mês que não posto textos novos, mas como disse anteriormente, estou cheia de atividades e fica muito difícil me concentrar da mesma forma que era antes.

Semanas atrás estava rolando uma propaganda sobre um creme de estrias que dizia que 90% das mulheres têm estrias e foi impactante isso, pois se somente 10% das mulheres não têm, quer dizer que isso é algo natural do gênero feminino e a mídia se apossou de uma característica com intuito de lucrar em cima, utilizando da baixa autoestima corporal, demonizando algo que não deveria ser visto dessa maneira e sim como algo natural, afinal, homem quando têm cicatriz, sente até orgulho da marca em seu corpo e nem por isso são bombardeados o tempo todo com propagandas desmerecendo seus corpos, enfim, desse ponto em diante fiquei inquieta e comecei questionar algumas imposições sociais que não são nenhum pouco saudáveis, vou exemplificar nesse texto com dois fatos reais que coletividade colocava como normal e saudável para as mulheres antigamente.

O primeiro é sobre o pé flor de lótus que virou tendência no início do século X na China, que nada mais é que enfaixar os pés das mulheres a partir dos cinco anos de idade, com ataduras fortemente apertadas o suficiente para quebrar os ossos e arqueá-los, deformando os pés e interrompendo o crescimento de maneira natural. Essa tradição era passada de geração em geração e o maior objetivo era atrair o sexo oposto e conseguir se casar, inclusive as mulheres sentiam orgulho da prática.
Os pés flor de lótus eram tidos como eróticos para os chineses, pois a forma final era tida como uma segunda vagina e o jeito como a mulher, com toda a dificuldade de se locomover, lembravam uma flor de lótus ao vento e esse “costume” era comum na Coréia, na Indonésia, no Tibete, no Japão e em outras localidades da Ásia e foi abolido em 1949 ainda bem, mas ainda existem mulheres vivas que passaram por essa torturante deformação que a coletividade pregava como saudável e necessária.

Não pensem que é só na China que ocorreram atos macabros com mulheres em nome de uma coletividade injusta e machista, aqui no Brasil antigamente em algumas regiões como em Santa Catarina, era costume o pai pagar a extração de todos os dentes da frente da noiva antes do casamento, pois assim ela não daria gastos com dentista posteriormente para o marido e para não machucá-lo fazendo sexo oral, enfim, ainda existem mulheres vivas com a boca sem os dentes, acho bem difícil um dentista aceitar atualmente extrair com esse propósito, dá até calafrios em pensar nesse tipo de crueldade.

Pessoas o que eu estou querendo problematizar nesse texto é a questão de que por muitas vezes em nossas vidas, principalmente nós mulheres, somos induzidas por essa voz social que diz que “para ser bonita tem que sofrer” ou "todo mundo faz, você deve fazer também" e não é bem assim que deveria ser.

Transformaram nossos pelos em sujeira, falta de higiene e sinônimo de cuidado, sendo que pelos são proteção natural do corpo, uma sessão de depilação com cera, que é a mais acessível para a maioria das mulheres, é dolorosa, causa foliculite, dentre outros efeitos colaterais que podem levar à consequências drásticas, daí a mulher vai se depilar com lâmina e enche de bolinhas e machucados nos dias seguintes.

Outras optam pela foto depilação e acabam no pronto atendimento, para drenar os cistos ocasionados pela prática. Gente, fiz uma vez o procedimento, pois meu ex colocou na minha cabeça que meus pelos eram horríveis, chegava a falar que eu era anormal, nunca mais eu faço, além de doer muiiiiito, algumas consequências perduram até hoje.

Nossos cabelos precisam seguir um padrão liso igual de pessoas orientais, no entanto a maior parte das brasileiras são de origem afro, não possuem essa estrutura capilar e se decidem assumir seu estilo natural, são tidas como desleixadas, pois o padrão prega que isso é o que se deve seguir e sofrem tratamentos químicos extremamente nocivos ao longo do tempo para manter esse padrão, com risco de desenvolver várias doenças, inclusive o câncer e no final tudo isso é pra parecer atrativa, ser aceita socialmente.

Outra prática coletiva diferente da estética e beleza física são os filmes pornográficos, que na maioria das vezes coloca a mulher como objeto de satisfação masculina, inclusive colocando violência como normalidade e o pior, a maioria dos homens querem fazer isso no cotidiano do relacionamento, acham bacana a mulher não ter prazer e o pior, sentem prazer na dor alheia e na servidão sexual feminina e fazem parecer que é normal, que devem aceitar pois “todo mundo faz isso”.


Pessoas pensem muito bem antes de aderir a algo na vida de vocês, no risco benefício e se isso realmente é necessário, pois a coletividade por muitas vezes é abusiva, agressiva e te faz pensar que sofrer é o padrão a ser seguido e não é, amar e ser dona de si mesma deveria ser, lembrem-se sempre “minha vida, meu corpo, minhas regras”.


05 março 2017

Já que é pra tombar: sobre feminismo, empoderamento e a greve internacional do dia 8 de março.
















Olá pessoas queridas!

Estava escrevendo um texto sobre saúde do homem, não consegui finalizar até hoje, então a vida segue e posteriormente devo me dedicar ao tema com maior empenho e publicar.

No dia 8 de março comemoramos o dia internacional da mulher e inclusive vai acontecer uma greve internacional das mulheres neste dia e sabem porque? Precisamos nos unir por nossas vidas, nossa segurança, nossa liberdade, nossa importância na sociedade e por um mundo com mais equidade de gênero, para que não aconteça mais violência de gênero, estupros (marital principalmente) e feminicídios, lembrando que nosso país é o 5° país com maior taxa de feminicídio do mundo e o pior país para se nascer mulher na America do sul. 

A págna oficial da greve:
https://www.facebook.com/GrevedeMulheres/?fref=ts


O tema desse texto vai de encontro com o empoderamento, pois a mídia noticia casos de violência, romantização da violência o tempo todo e as mulheres ainda não entenderam que isso tudo é sobre a vida delas, sobre o risco que vivemos e inclusive crime passional não existe minha gente, existe crime de ódio e controle, homem não mata mulher por amor, mata por ódio e controle, homem não bate em mulher por amor, bate por ódio mesmo, pois as coisas não saíram do jeito que ele quis, saíram do controle dele. 

Homem não mata e agride por ser doente mental, faz pois a sociedade permite e reforça suas atitudes, eu mesma poderia estar morta uma hora dessas se meu agressor não tivesse largado meu pescoço a tempo, pois o bonito ficou com ódio por eu ter me rebelado e não aceitado mais a opressão que vivia com ele e não venham me falar que esse desgraçado gostava de mim, ele amava era o controle e o poder que tinha sobre essa que vos fala. 

Meu agressor era louco? Não, aliás era racional até demais, sem escrúpulos e manipulador, aprendeu no seio familiar que podia ser assim, nada fazia ele parar, sabia o que estava fazendo e de coitado não tinha nada, até os dramas pessoais dele tinham má intenção. Ele percebia que me fazia mau? Acredito muito que por ser natural para ele ser assim, não era percebido como algo errado, inclusive alguns amigos dele falavam que ele era abusivo e ele ria.

Como assim você deixou acontecer? Você que sabe tanto disso tudo? 

Então pessoas sim! Me faltava o empoderamento, me faltava internalizar a frase "minha vida, meu corpo, minhas regras", faltava amor próprio, faltava coragem de impor respeito e o conhecimento não me protegeu da violência, afinal não sabia me defender desta, não tinha entendido que isso tudo era sobre a minha vida e das demais mulheres, ainda acreditava que sendo doce, carinhosa, compreensiva, confiando e acolhendo meu agressor, poderia ajudá-lo a melhorar como ser humano e a consequência disso foi a pior das piores, pois meu agressor já estava muito nutrido por amor, estava forte e eu desnutrida emocionalmente e ele importando só com o umbigo narcísico dele.

O que me ajudou a empoderar foi desenvolver a habilidade de falar "não" ao que me desrespeita, foi desenvolver a desconfiança e o senso crítico, não aceitar menos do que eu acredito que mereço, não tentar mais dialogar com opressores e principalmente entender que sendo doce ou bruta vou sofrer opressão, só por ter nascido mulher. Então ficou muito claro que eu tinha o poder de decisão, da forma como sofrer essas opressões e passei a viver minha vida sem o sobrepeso dos papéis de gênero, aprendi a respeitar meus limites sem dar satisfações ao mundo e deixei de me importar com a opinião alheia sobre minha vida e daí foi só amor.

Informações sobre violência de gênero a gente tem aos baldes, o que falta para as mulheres é começar a levar a sério, parar de enxergar isso como algo alheio e distante, que só acontece em periferia, pois o agressor na maioria das vezes está bem perto e você confia e tem amor por ele.

Por muitas vezes, este tem a chave da sua casa, mora contigo e fez um filho em você ou dividiu o mesmo útero contigo, te colocou no mundo e é casado com a sua mãe, nasceu da tua tia ou da tua vizinha, aquele que toma cerveja no final de semana na mesma mesa que você. Pode dividir a mesma sala no trabalho ou trabalhar como segurança na boate que tu frequenta, pode ser também aquele que presta serviço na sua residência, pode ser também aquele que te atende na emergência do hospital, aquele que te dá aula e soltas piadas sexistas, que te faz sentir inferior só por ser mulher, enfim, opressores sejam estudados ou não, nos cercam de todos os lados, afinal diploma não garante o selo de pró-feminista aos homens e as estatísticas estão aí te mostrando que deve desenvolver a desconfiança. 

A violência de gênero é naturalizada em nossa cultura patriarcal e por muitas vezes nem mesmo a gente enxerga no cotidiano e uma dica que deixo é sempre se perguntar se naquela situação a pessoa envolvida fosse um homem, como seria? iria ser diferente? Te garanto que você vai se surpreender muito, pois em quase todas as situações é diferente a tratativa de gênero, mesmo com todo mundo falando que temos que entender o mundo independente de gêneros, como seres humanos, a realidade é terrivelmente diferente.

Mulheres esqueçam aquela voz interna que te gera culpa, te coloca como pessoa ruim/incapaz, te faz acreditar que não merece ser feliz. Aquela voz interna que quando o agressor diz que você é assim, compactua e te joga pra baixo, cale essa voz e comece a dizer sim para você mesma, escuta tuas necessidades, se defenda, tua vida vale mais, seu corpo não é defeituoso e imperfeito, tuas vontades valem a pena, você não é louca e sim uma mulher poderosa e com opinião formada. 

Faça um favor para você escute "Born this way" no último volume e cante, dance como se não houvesse amanhã. Ouça Nina Simone e aprenda muito com o feminismo das mulheres negras e ouça "Bad Romance" para não se esquecer das relações abusivas e se libertar desse papel de gênero opressivo que fizeram você acreditar que é amor. Procure ler Simone de Beauvoir, Angela Davis e conheça a história da Frida Khalo, curtam no Facebook páginas feministas, elas super ajudam no empoderamento, consuma mais coisas produzidas por mulheres à sua volta, escute as que estão sofrendo violência e principalmente fechem as fábricas de biscoitos aos homens, continuar passando a mão na cabeça só reforça o machismo, não aceitem mais a frase "isso é coisa de homem, eles são assim mesmo", eles precisam aprender limites e respeito e só vão aprender quando a gente falar não de verdade e a resistência é necessária e urgente manas, unidas somos mais fortes, umas pelas outras.


Chamo vocês para a greve internacional nesta quarta, procurem na cidade de vocês e levem à frente esse 8 de março para a vida toda, vamos nos unir e desenvolver a sororidade, pois juntas e resistindo  somos fortes, provocamos modificações verdadeiras e efetivas nessa sociedade, afinal, o futuro depende de nós que estamos vivendo nessa época e as futuras gerações precisam de nossas lutas aqui e agora. Deixo vocês com 3 músicas empoderadoras e as músicas que citei acima, desejo um dia 8 de março de muita luta e força para todas as minhas iguais, amo vocês manas e podem acreditar que a lágrima que está no meu olho agora é verdadeira e de muito amor à todas, sintam-se abraçadas, sororidade existe aqui. 








05 fevereiro 2017

Da cumplicidade à solitária servidão afetiva.

Olá pessoas!

Demorei para terminar esse texto, pois felizmente estou em um momento de muitas atividades e pouco tempo para escrever, possivelmente vou escrever com um espaço de tempo maior, mas podem acreditar, abandonar o blog novamente acho bem difícil, só se a mente travar de novo.

Certo dia conhecemos uma pessoa bacana, gente boa mesmo, carinhosa, parceira, que fecha contigo em vários sentidos, que de tão bacana te desperta vontade de fazer por ela também, que você quer fechar junto também, que te faz se preocupar com o mundo dela, pois ela se importa com você, quer teu bem e impulsiona você a ter vontade de continuar ao lado, de fortalecer aquele vinculo recém iniciado.

Te gera curiosidade em conhece-la, pois ali não é demonstrado perigo, descaso, é um momento de paz estar junto, mesmo com os problemas da vida, te faz acreditar que ali você pode ser você mesma, que o respeito e a empatia é quem dita as regras, enfim, você encontra alguém que realmente a cumplicidade e parceria podem ser exercidas, um porto seguro.

Tudo isso é atrativo e sedutor, um relacionamento com alguém que confiamos, respeitamos e principalmente que não precisamos usar a força (mental e física) para nos proteger, pois ali somos queridos e aceitos, o único medo é de perder tudo isso, como diria a Pitty na música “Medo”:“Só tememos por nós mesmos ou por aqueles que amamos, homem que nada teme, é o homem que nada ama” e aí queridxs é que entra a problematização, pois somos movidos de alguma maneira por necessidades e memórias afetivas.

O relacionamento segue o fluxo e as regras de convivência afetiva são estabelecidas gradativamente com o passar do tempo, afinal aos poucos vamos conhecendo a pessoa, suas incoerências, qualidades e inicialmente é normal a existência da preocupação em não dar mancadas e com o passar do tempo quando a insegurança do começo se dissolve, vamos nos despindo da nossa máscara de perfeição e inevitavelmente as mancadas vão acontecer, tanto da nossa parte, como da outra pessoa e o problema nesse ponto é como as partes lidam com as opiniões divergentes e frustrações.

Vamos expondo o que nos alegra, nos agrada/desagrada, o que não aceitamos de maneira alguma e quando a pessoa realmente se preocupa com o bem-estar do relacionamento, não vai insistir e forçar a barra, vai entender e respeitar ou vai tentar propor uma solução que seja viável às partes, isso se chama dialogo e companheirismo, o contrário disso é abuso.

Quando gostamos de alguém aprendemos a relevar algumas coisas desagradáveis, pois a pessoa tem várias qualidades e brigar por “besteira” não vale a pena (foi assim que nos ensinaram), só que aí mora uma questão muito séria e posteriormente o preço de relevar pode ser alto para nós mulheres, pois em geral os homens não deixam passar uma, não são muito adeptos desse relevar, com exceção do início do relacionamento, em geral eles resistem ao que desagrada e impõe a forma de ser deles, não tem muito diálogo e você corre o risco ainda de ser culpabilizada por algo que ele fez de ruim para você (gaslighting).

O maior problema surge quando uma das partes entende parceria como servidão, obediência e o que no início era só “não gosto, mas tudo bem, eu te respeito”, como no caso do desagrado da parceira ter amigos homens, gostar de sair sozinha, trabalhar, usar roupas curtas, negar sexo, dividir as tarefas domésticas, etc, deixam de ser só algo que desagrada e se tornam exigências, motivos de manipulação e chantagem emocional, transformando o relacionamento em um campo minado de pavor e terror psicológico, onde uma das partes é massacrada a ponto de perder a identidade e deixar pra lá seu direito de ir e vir em decorrência do enfraquecimento mental.

O que inicia com cumplicidade, parceria, empatia, se transforma em servidão afetiva, o que antes era um agrado, favor, escolha, decisão se torna obrigação e isso decorre da insistência, da imposição, do egoísmo, da cegueira e surdez seletiva, da manipulação e da chantagem que se torna intolerância e nada do que a outra parte tentar para ficar tudo bem, dá certo. O que antes era diálogo se torna um discurso verticalizado e autoritário, pois quem manda e tem força física é o homem.

Sabem porque não adianta esse diálogo? Pois a outra parte não está afim de resolução, te vê como inimiga, não está preocupado com o relacionamento, está seguro com a dependência da outra parte, está afim de impor o desequilíbrio ou na cabeça, a resolução está em silenciar, massacrar e calar, ou seja, deseja o poder e o domínio da situação, não a parceria, só que isso não é tão nítido e perceptível, envolve sentimentos, as vezes nem para quem está cometendo.

Outra coisa que acontece recorrentemente dentro de relacionamentos com homens narcísicos é que na cabeça deles só o que pensam tem validade, são os únicos dotados de inteligência e opiniões válidas e para piorar a situação, impõe isso como a única verdade absoluta no mundo, não escutam a outra parte e se tornam agressivos quando contestados, oprimindo até o ponto que a outra parte não consegue mais se impor, pois não existe espaço para isso, se cala. Se a parceira fala que o céu está azul e eles entendem que está roxo, vão massacrar até nocautear psicologicamente e a pessoa falar que estão certos e que o céu está roxo, mesmo não existindo isso.

A mulher em geral se torna dependente emocionalmente, pois se apega as pseudo qualidades do passado e as migalhas afetivas que nesse cenário são raras e no final quando acaba o relacionamento, se acabar, os narcísicos saem ilesos como se nada tivesse acontecido e as mulheres destruídas.

Me recordando de dois relacionamentos, toda vez que eu tinha algum problema e ia dividir não existia o acolhimento de fato, aquele momento de escuta, o que existia era mais momentos de dor, pois além da insegurança que eu já estava vivenciando, a outra parte fazia questão de humilhar, agredir, agir com estupidez como se tudo fosse um incomodo e eu era uma inútil mimada que estava fazendo drama. Quando a dificuldade era com eles, a trouxa aqui era acolhedora, carinhosa e cuidadosa, afinal não sou covarde como as outras partes, não ficava usando os defeitos, dessabores deles para humilhar, causar mais dores, tentava pensar junto e buscar resolução.

Desconfio que isso acontecia por falta de empatia, por falta de sensibilidade e principalmente por prazer, sim, quando não existe cumplicidade e respeito, buscar apoio no seu agressor é receber sadismo de volta, pois só o que eles pensam está certo e na cabeça deles merecemos ficar pior do que já estamos, nada novo sob o sol.

De tudo que aprendi nessa vida é que só existe cumplicidade em relacionamentos quando os objetivos relacionais são parecidos, aquela história de que os opostos se atraem é furada, o que dá certo mesmo é quando existe espaço para sermos completos e não completar um ao outro, quando os planos futuros são parecidos, quando a necessidade de dividir, doar e receber são parecidas, do contrário, quando é verticalizado só acontece desestabilidade e tristeza, afinal “O bom encontro é de dois”.

Deixo vocês com quatro músicas para a reflexão, volto logo pessoas de bem.







22 janeiro 2017

RESPEITO É BOM E EU GOSTO: Inquietações sobre “se dar valor e respeito” na lógica patriarcal.

Olá pessoas!
Hoje venho conversar com vocês sobre “pessoas de respeito” e “pessoas de valor”, pois existe uma grande diferença social ao significado de acordo com o gênero. Esses dias atrás estava lembrando da primeira vez que um “omi” me disse a seguinte frase:

“Raquel você tem que se dar mais ao respeito, se valorizar mais”

Eu com 14 anos na época não consegui compreender e perguntei o que era se dar o respeito e se valorizar, e o guri pensou que eu estava de piada e respondeu que eu sabia o que era, só que não! Eu realmente não sabia! Não fui educada na lógica da família tradicional patriarcal e cristã, a noção de respeito e valor era outra, não se aplicava aos papéis de gênero e tipo de comportamento baseado em genitálias.

Na minha ingenuidade acreditava que o respeito e valor de uma pessoa estava ligado ao ato de se respeitar nas vontades, claro que sem prejudicar o próximo. Entendia que se dar o respeito e se valorizar, era fortalecer a autoestima, era se gostar, que tinha algo em comum com escutar nossa essência, não se forçar a situações que podem ser nocivas, se respeitar era buscar o crescimento e evolução pessoal, enfim, era cuidar da gente com carinho e não deixar o mundo externo agredir, impondo quem somos e dando limites aos outros.

Com relação ao externo naquela época, uma pessoa de respeito e valor era aquela pessoa forte, que não tinha medo de ser o que é, que tem algo a oferecer e principalmente uma pessoa que era livre consigo mesmo. Com o tempo o pensamento foi modificando e hoje em dia acredito que todas as pessoas possuem seu valor, em sua singularidade sempre existe algo a dividir e aprender, o mundo é plural, diverso, complexo e infinito, eu que devo respeitar a subjetividade de cada um, desde que essa subjetividade não me destrua, simples assim, sem tentar controlar ninguém. Só que o mundo não é assim e hoje tenho noção do que é “o se dar ao respeito e valor” para o senso comum, mesmo não seguindo essa lógica doente que se apega aos papéis de gênero.

O que é um homem e uma mulher de respeito para a coletividade e o senso comum?

Ele é uma pessoa livre, que têm opiniões e liberdade de falar, agir da maneira que desejar, sempre existirá algo que promoverá sua ascensão social, não existe algo que realmente os puna dentro da heterossexualidade, inclusive sua sexualidade pode ser vivida de uma maneira livre, “não se paga o frete”. O julgamento só surge mesmo quando são gays ou seguem padrões que fogem da regra masculina e a comparação é sempre ao universo feminino, ou seja, se o cara é mais sensível, tímido, contido e afetivo, vai ser chamado mulherzinha pelos demais.

O homem de respeito é o cara narcísico, manipulador, conquistador que tem a autoestima elevada ou é agressivo por insegurança e socialmente está tudo bem ser assim, pois sua virilidade está se mostrando. No momento que consegue uma promoção no trabalho, nunca será julgado por sua sexualidade, não irão falar pelas costas que ele fez sexo para conseguir, sempre será por seu mérito. Quando é autoritário, ele é só autoritário e merece respeito, não vão falar que está louco, desequilibrado ou que falta de sexo, é só um cara de personalidade forte, não precisa nem pedir desculpa por ofender ou agredir, pois é o jeito dele ser assim e as pessoas que precisam aprender a respeitar a personalidade dele.

O cara de respeito é aquele que não abaixa a cabeça para nada, não demonstra medo, não implora, não se arrepende, supera as adversidades em um passe de mágica, segue em frente. Quando trai a parceira, não é julgado, inclusive as pessoas se esforçam para achar um motivo para culpa-la ou absolver o comportamento dele, pois libido e virilidade para homem é questão de honra.

Não precisa se preocupar com roupas, o medo real do cara de respeito é ser assaltado, enganado, pois medo de estupro e violência de gênero é coisa de mulher. O homem de respeito jamais vai se envolver emocionalmente com uma mulher que “não se valoriza ou não se dá ao respeito” de acordo com a iniquidade cultural de gênero, mulheres assim vão deixá-los envergonhados, humilhados, medo de ser chamado de otário pelas costas e devem ser tratadas como descartáveis, objeto sexual, não merecem ser respeitadas, servem só para ser amantes.

Uma mulher de respeito e valor em nossa cultura conservadora tem que ser apresentável, doce, agradável, contida, submissa, sorridente, suave, alegre, compreensiva, carinhosa, aceitar a subserviência como uma benção e não ser reativa. Sua forma de se vestir é julgada, mulher de respeito não usa roupa curta e não deixa nada à mostra, se ela se veste com mais ousadia não merece respeito, merece e está pedindo para ser estuprada, violentada e ser desmoralizada de alguma forma.

A mulher de respeito não possui vontades sexuais centradas nela, foi educada a não conhecer o corpo, não se masturba, mesmo porque masturbação sempre foi assunto proibido, o que foi ensinado sempre se volta à servidão ao prazer masculino (relações sexuais falocentradas) e se possui não é permitida a falar ou questionar, se as pessoas ficam sabendo, é condenada ao título de indecente/imoral, pois mulheres que realmente gostam de sexo e possuem liberdade de conversar sobre, de conhecer o funcionamento do corpo, é mulher que não merece respeito. Mulher de respeito é dama na sociedade e puta na cama, ou seja, garotas de programa são pagas para dar prazer e satisfazer os homens que às contratam, não para obter prazer das relações sexuais.

A questão da virgindade cristão heteronormativa, dá ao homem a responsabilidade de “ensinar” o caminho do prazer e como bons “educadores” narcísicos, ensinam que servidão sexual centrada neles é o verdadeiro prazer que cabe à mulher, e quando eles decidem dar prazer à mulher, é só quando estão dispostos ou acham que elas merecem. É só parar para pensar em quantas vezes o seu parceiro chegou ao orgasmo no último mês, quantas vezes você chegou, quantas vezes você teve que pedir isso e quantas vezes foi espontâneo da parte dele.

O comportamento docemente infantilizado é visto como sexy, instigante, pois isso mexe com o ideário de poder e controle masculino, ser frágil e indefesa é valorizado, mas não protege ninguém, aliás potencializa a vulnerabilidade, pois não é um papel que coloca limite e sair desse papel é algo desmoralizante para o sexo feminino.

Existe uma linha divisória invisível ao que nos desrespeita e o melhor, nosso corpo reage junto (nó na garganta), o complicado é como lidamos com tais situações, o melhor seria que não deixássemos ninguém invadir esse limite. Infelizmente quando alguém ousa ultrapassar, somos ensinadas a dialogar com quem nos desrespeita e não a nos defender, afinal, quem passa do limite saiu do contexto de diálogo e o que resta é autodefesa sempre.

Com o limite ultrapassado é pé no peito, diálogo com quem ousa ultrapassar limites não adianta e dá liberdade para a pessoa fazer pior, pois o limite não foi imposto, relevar só leva a mais invasão, absorver e engolir a dor a seco não vale a pena, enfim, impor limite é amor a si mesma, reagir e se defender é prevenção às possíveis dores psíquicas futuras que demoram muito tempo para a cicatrização mental e o melhor, a pessoa é obrigada a entender que dali não pode passar e isso sim é se dar ao respeito e a pessoa que sabe respeitar esse limite, é a pessoa de respeito e valor de verdade.

A sensação de pisar em ovos e de se controlar por medo, de “adivinhar” a reação do outro de maneira apavorada é a maior demonstração que você está respeitando mais a pessoa em questão, do que se respeitando, mantenha distância desse tipo de pessoa, pois relações de amizade, entre parceiros íntimos que exige isso de uma das partes, não são relações saudáveis, são abusivas e tóxicas, ninguém tem que entender o jeito abusivo, agressivo e destrutivo de ninguém, a outra parte que é descontrolada e apática que deveria rever sua forma de ser no mundo.

Para finalizar deixo duas músicas na voz bela e forte de Beth Carvalho, que falam de limites e potencialidades humanas, mais uma sobre o "macho de respeito" e a última que mostra o agressor fazendo drama e a vítima se defendendo. Ninguém deve ser "bonzinho" em situações de risco e injustiça, se cuidem com carinho, protejam o que existe de melhor em vocês, não joguem pérolas aos porcos, a vida é uma só.











08 janeiro 2017

Brasil e a triste realidade da violência de gênero, LGBTfobia e Transfobia.

Olá pessoas!

Hoje vou discorrer sobre a intolerância, machismo e a banalização relacionadas à violência de gênero e LGBTfobia, pois na virada do ano ocorreu o infanticídio e o feminicídio na cidade de Campinas-SP, já acordamos com essa triste notícia, fora os crimes de LGBTfobia e as mortes acarretadas pela transfobia que ocorreram em nosso país no ano passado, não tem como passar por cima e tratar como algo distante, brincadeira e vitimização, enquanto ocorrer crimes determinados por gênero, cor de pele, orientação sexual e identidade de gênero, estamos todos correndo risco.

A ONG Save the Children em seu relatório publicado no ano passado aponta que o Brasil é o pior país da América do Sul para ser menina, sendo que a Organização Mundial da Saúde aponta que nosso país apresenta a quinta maior taxa de feminicídios do mundo. O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública ao estimar que ocorreu entre 129,9 mil e 454,6 mil estupros no País em 2015, ou seja, estupros ocorrem um a cada 11 minutos, fora o que não é denunciado, não consigo imaginar como seria a taxa de incidência, pois existe o estupro marital, de incapaz, dentre outros tipos que não são denunciados e você aí pensando que feministas são loucas, se fazem de vítima, só que não! Lutamos pela equidade de gêneros.

É muito triste viver em um país onde a violência contra a mulher/pessoas LGBT, a cultura do estupro é real e o risco é grande de morrermos “assassinades” jovens pelas mãos dos homens. As estatísticas estão aí para comprovar isso, o assassino de Campinas-SP pontuou isso muito bem em sua carta.

O pior é que tais tipos de violência são banalizados em nossa cultura e só alcançam a comoção e a indignação real quando chega ao extremo do assassinato. Muitas mulheres denunciaram seus agressores antes do assassinato, pedem ajuda aos conhecidos/familiares e se vê sozinha, nada de efetivo é feito para protege-las, nem em âmbito jurídico, muito menos na rede pessoal de apoio da vítima.

Existem várias maneiras de deslegitimar e colocar em risco as vítimas, um exemplo disso são discursos como: “no meio de marido e mulher não se mete a colher”, “é só briga de casal, daqui a pouco eles voltam”, “é só coisa de ex namorada dramática com ódio que fica desmoralizando o coitado do cara”, “que se faz de vítima” e “já deviam saber que homens são assim mesmo, deveriam ter escolhido melhor”. 

As medidas judiciais são na maioria dos casos ineficazes pois demoram para ter uma resolução e a protetiva não adianta muito, é falha na forma que é aplicada em nosso país.

Crimes contra a mulher e pessoas LGBT ocorrem em todas as classes sociais e essa banalização também promove o que chamamos de culpabilização da vítima e absolvição social dos agressores, que por sua educação privilegiada e pela permissividade social nem ao menos desenvolvem satisfatoriamente o discernimento e o limite do que é violência de gênero, já dizia Renato Teixeira de uma maneira muito natural sobre o privilégio masculino na música Frete “Eu conheço as minhas liberdades, já que a vida não me cobra o frete”, muito fácil viver sem o pavor, viver a liberdade de uma vida sem culpa e julgamento.

Atualmente o Brasil também vive uma “epidemia” de intolerância e violência contra pessoas LGBT que vão desde as piadas cotidianas, intolerância e controle ao que sai do padrão heteronormativo cristão, à autoestima heterossexual que pensa que todo LGBT está afim, ao risco de sofrer violência por demonstrar amor em público, estupros corretivos, objetificação sexual (tratar da orientação sexual alheia como promiscuidade e fetiche) até assassinatos ocasionados principalmente pela cultura patriarcal doente e machista.

Conforme os dados coletados pela ONG Grupo Gay da Bahia (http://www.ggb.org.br/), nos últimos quatro anos e meio, mais de 1,6 mil pessoas foram assassinadas em território nacional por motivações LGBTfóbicas, representando praticamente uma morte por dia e pode ser considerado o país que mais mata pessoas Transexuais no mundo de acordo com o levantamento feito pela Europe’s Trans Murder Monitoring (TMM) Project e só pra constar, vocês sabiam que a expectativa de vida para as pessoas Trans em nosso país é em torno de 35 anos, a causa mortis é o assassinato e a falta de oportunidades por transfobia ocasionada pela intolerância à identidade de gênero dessas pessoas.

Saber dessas coisas não deve deixar a gente em depressão e apatia, o não saber é perigoso, conhecimento serve para nos deixar mais fortes e conscientes, o ano virou, mas o combate à violência precisa continuar em nosso cotidiano, na resistência, na sororidade, no pró-ativismo das pessoas parceiras e na rejeição à opressão diária. Volto a desejar um 2017 de muito fortalecimento e luta a todos, que o olhar crítico de vocês esteja bem aguçado para não deixar passar nada que agride a integridade de vocês “querides”.


Deixo uma música poderosa da Nina Simone que tem possuído minha alma e me representado muito, duas músicas da banda Hole que não saem do repete faz um mês, como não amar loucamente essas mulheres fantásticas?