27 dezembro 2016

Reflexões sobre associação livre, histeria, negação e feminismo.

Olá colegas, amigos e leitores!

Freud já fala há mais de 100 anos que conversar sobre nossas intimidades e dificuldades de maneira aberta é terapêutico, não só sobre aquilo que conversaríamos com os nossos melhores amigos, mas sim colocar para fora aquilo que você não falaria em voz alta nem para você na frente do espelho e quando Freud descobriu isso com a Anna O, conseguiu ajudar várias mulheres a elaborar o sofrimento psíquico ocasionado pela repressão social doentia daquela época.

No início do século 20, existia a enfermidade psíquica chamada Histeria que acometia geralmente mulheres e causava sintomas físicos/mentais como a cegueira, paralisia física, delírios, alucinações, dentre outros sintomas que os exames apontavam como impossíveis de acontecer, pois a pessoa acometida gozava de boa saúde física. No entanto essas pessoas sofriam e acabavam passando o resto da vida em manicômios ou trancadas em quartos, longe do convívio social.

Freud inicialmente descobriu que a utilização da hipnose, promovia o acesso aos conteúdos mentais que essas pacientes jamais falariam abertamente, pois eram carregados de pudor e culpa que reprimiam, recalcavam e deslocavam inconscientemente para sintomas físicos, pois devido à repressão e a sociedade conservadora da época, não puderam desenvolver a flexibilidade interna para elaborar tais pensamentos.

Com o tempo Freud descobriu a técnica de Livre Associação dos conteúdos psíquicos, ou limpeza de chaminé como apelidou a famosa paciente “Anna O”, em que a paciente teria a possibilidade de falar o que viesse à mente, sem medo de ser punida ou de sentir culpabilidade por tais pensamentos e desta maneira era promovido um espaço de diálogo sobre as inquietações mais íntimas, possibilitando a elaboração tais conteúdos.

Lembrando que naquela época, a sociedade era de extremo machismo, a mulher era oprimida de maneira mais severa que no momento atual.  Só o fato de desejar sexualmente, mesmo que inconsciente, já era motivo para a autopunição severa, ocorria a negação ao pensamento libidinal e sofriam por desejar, por medo do julgamento social e se puniam internamente por desejar, se aprisionavam em uma cadeia mental.

Atualmente a histeria não existe da forma como era antes, mas existem pessoas que desenvolvem espectros da doença, são as chamadas facetas histéricas, só que além disso, ainda existe a cruel questão conservadora em nossa sociedade com relação às mulheres (comunidade LGBTQ+ também), isso é preocupante, pois a partir do momento em que constantemente somos violentadas, agredidas, abusadas, amordaçadas e principalmente silenciadas por um mecanismo social sádico e invisível que cria, absolve, protege nossos opressores e nos faz inimigas e repressoras umas das outras, pode se considerar um terreno fértil para o desenvolvimento das principais psicopatologias de nossa época como a  síndrome do pânico (possui vários aspectos somáticos), depressão, transtornos de ansiedade e personalidade.

Em uma sociedade que impõe severamente que mulheres são destinas à subserviência patriarcal, ao recato, a objetificação corporal, ao enlouquecedor “equilíbrio” infantilizado (triste, louca ou má), ao prazer vinculado à servidão sexual ao homem (o conceito de virgindade impede a mulher de conhecer o próprio corpo) e principalmente à “polianisse”, sair desses padrões é quase um ato criminoso passível de punição social, bem pesado.

Outro fator é a massacrante cultura da “perfeição”, do padrão de beleza e comportamento “branco hétero cis” que a mídia enfia goela abaixo em todos nós, inclusive essa, o tempo todo faz o desfavor de romancear a violência de gênero, promove o ódio ao corpo, a baixa autoestima deixando o caminho livre para a automutilação, gordofobia, racismo, lgbtfobia.

Se somos constantemente oprimidos em nossa natureza sem a possibilidade de desenvolver a resiliência de maneira satisfatória, atrofiamos nossa espontaneidade e nos tornamos marionetes sociais mentalmente adoecidas por não suportar a dor da negação e viver uma vida vazia, muitos acabam dependentes de drogas (legais/ilegais) ou se escondem em umbrais psíquicos e armários cheios de poeira.

Pessoas desejo um 2017 recheado de desconstruções mentais e fortalecimento! Desejo também que consigam o fortalecimento necessário para resistir aos modelos sociais que tanto nos machucam no cotidiano. E pra finalizar, desejo que consigam desenvolver o olhar ao corpo sem sexualização, o clipe da Clarice Falcão mostra isso de maneira muito simples, ela “ahazouuuu” nessa movimentação, é de aplaudir de pé, pena que retiraram o clipe do ar.




26 dezembro 2016

Revistar/revisar sem dúvida é um ato de autoconhecimento.

Olá humanos!

Desde que comecei a escrever o blog em 2008 posto os textos e assunto encerrado, raramente volto em algum texto para releitura. Conversando com uma grande amiga uns meses atrás ouço assim “Rack quero muito que teu blog nunca acabe, que minha filha quando crescer possa ler” e isso ficou muito marcado na mente, admito que não lido muito bem com elogios, sou pessimista, mas esse em especial me fez ter vontade de colocar totalmente a casa em ordem e de lá pra cá tenho feito algumas alterações, dedicado mais tempo dialogando com as pessoas e pensando em novos conteúdos.

Ficar um ano sem insight de escrita foi torturante, não sei explicar, sentia como se existisse uma mordaça mental, a mente estava vazia, nada surgia, nada fazia sentido, totalmente escassa e improdutiva. Esse ano pude conviver muito com a diversidade em vários sentidos, me libertar de correntes que nunca foram parte da minha natureza, mergulhar de corpo, alma e coração em velhos mundos que sempre tive vontade de conhecer, só não tinha tido o privilégio da oportunidade, enfim, foi o melhor ano da minha vida.

Semana passada tomei coragem para encarar a revisão de todos os textos, foi fantástico fazer esse movimento, é como se fosse uma máquina do tempo (vários momentos me emocionei), revisar foi uma forma de autoconhecimento, lembrar de contextos passados, se alegrar com outras épocas, dialogar com a intimidade e principalmente se perdoar, se resolver em vários sentidos.

A questão da incoerência e do machismo nos textos antigos, eram meus maiores medos e não encontrei, consegui entender que o feminismo sempre existiu aqui dentro e no blog, a questão da equidade/diluição de gêneros também.

Discussões que atualmente estão sendo dissecadas já estavam presentes nos textos, só que as pessoas me chamavam de louca/puta por pensar assim e isso gerava um desconforto muito grande, solidão, uma culpa monstro por não me adequar aos padrões conservadores, mas a resistência já existia e a diferença atualmente é que não sinto mais culpa e o que os outros pensam ao meu respeito não é problema meu, tornou-se um fator de seleção, estou bem feliz e me sinto mais forte a cada dia que passa.

Pessoas, o melhor de toda a revisão foi de perceber que a autopunição é desnecessária e sim, existe muita beleza em nossa singularidade/subjetividade, deveríamos romper com o padrão da automutilação mental e valorizar mais nossos feitos, deveria ser padrão o amor próprio e o auto reconhecimento de nossas habilidades, todos temos uma pedra preciosa precisando de lapidação.

Bom esse texto foi mais um desabafo, o próximo vai girar em torno da associação livre (técnica psicanalítica), histeria e feminismo e já está quase finalizado, até sábado disponibilizo.



19 dezembro 2016

Vamos falar sobre demissexualidade?


Olá pessoas amadas do meu coração.


Hoje vou discorrer sobre um tema íntimo, talvez algumas pessoas vão se surpreender, mas o fato é que de uns anos pra cá tenho me respeitado nesse sentido, relutei muito para escrever esse texto, mas sim, hoje vou discorrer sobre demissexualidade. Não consigo escrever intimamente sobre os outros tipos de asexualidade, pois não pertenço ao espectro.

Afinal o que é Demissexualidade?

São pessoas que só conseguem sentir atração sexual por outras pessoas se existir ligação emocional. O espectro Demissexual está entre ser sexual (alossexual) e assexual, não significando distúrbio, incompletude sexual e que a atração sexual sem conexão emocional seja necessária para se ter uma sexualidade completa. Alguns fatores que não se pode confundir com a demissexualidade é que por não se tratar de uma opção, escolhas sexuais como casar virgem, se abster de sexo para não ser difamada, não tem nada a ver com a demissexualidade, justamente por serem opções.

Para uma pessoa demi é bem sofrido viver em um mundo descartável como o nosso, pois não nos atentamos muito aos aspectos estéticos, corporais como em geral as pessoas sexuais se atraem. Um sorriso, uma expressão, um posicionamento, um gesto são o bastante para chamar atenção e despertar a curiosidade de ver mais de perto, não a atração sexual em si, isso acontece com o tempo e de acordo com os nossos sentimentos, pode ser rápido ou demorar, não existe aquela coisa de olhar uma pessoa na rua e sentir vontade de fazer sexo.

A dificuldade maior é a cobrança social que impulsiona enxergar as pessoas como objeto de satisfação sexual, do ficar por ficar, do descarte. Sabe aquele “convite” cavalo de Tróia social de que para ser feliz de verdade precisamos ser sexualmente ativos? Essas máximas sociais grudam em nossa mente, só que a angústia sempre está presente, a gente se sente obrigado a compactuar, sentimos que somos deficientes e mesmo tentando remar contra a maré interna e não se levando a sério quando não se tem noção dessa condição, a angustia e a tristeza é horrível. Fiz dois anos de análise pra conseguir entender que é minha essência e em 2010 me compreendi demi biromântica e percebi o tanto que me violentei antes de entender, só fui saber o nome nesse último ano, estou mais pra homorromântica, o universo masculino perdeu totalmente o encanto.

Ser demi não tem nada em comum com puritanismo, com abstinência sexual  e nem que pessoas demi não sentem desejo, não se masturbam (algumas sim outras não), que somos bichos pegajosos e fofos, que somos reprimidos sexualmente, que relacionamentos com pessoas demi são isentos de relações sexuais, que necessariamente só nos relacionamos sexualmente com pessoas com o contrato de relacionamento firmado, que não conseguimos praticar o poliamor, que somos monogâmicos, a lógica é simples, a atração sexual por outras pessoas só ocorre verdadeiramente quando a mente alheia nos encanta a ponto de existir ligação emocional da nossa parte.

Existem pessoas que se sentem atraídas por corpos musculosos, por pés, a gente se sente sexualmente atraídos por pessoas quando realmente existe conexão afetiva recíproca ou não, e não do instinto primitivo como a maioria das pessoas, para elas a atração sexual é a causa e para nós é a consequência das vivências, simples assim.

O texto foi curto, mas denso e deixo o pedido para as pessoas que se identificam com essa condição, procurem se respeitar mais, a vida fica linda e mais gostosa de se viver, não exijam tanto de vocês, pressão interna e auto abuso só levam à tristeza e falta de satisfação. Deixo três músicas lindas ouvi algumas vezes escrevendo o texto, não achei uma em si que se refira ao tema.




10 dezembro 2016

A “broderagem” e a seletiva surdez/cegueira patriarcal.

Olá pessoas queridas!

Para facilitar o entendimento do texto peço que vocês assistam o vídeo abaixo:


Absurdo? Machistas? Escrotos? Homens malvados? Só que não queridxs!

Foi só um exemplo de silenciamento feminino comum do cotidiano, nada novo sob o sol, a única diferença é que o recorte foi editado, exposto para milhares de pessoas e aconteceu a empatia pela concorrente, poderia ter passado batido, pois é tão comum quanto beber água, é o chamado machismo velado e esses homens não são tão diferentes da grande parte da população masculina na atualidade em nosso país.

Existe a tendência social ao silenciamento e desmerecimento ao gênero feminino, que faz com que as mulheres sintam constantemente a sensação de implorar para serem vistas, ouvidas e respeitadas. A sensação gerada pelo silenciamento feminino é como uma mordaça mental, que gera exaustão, ansiedade, angústia e se reagimos somos taxadas de desequilibradas, mal amadas, mal comidas, pois mulher incomodada e inconformada com algo está errado, deu defeito, não está em seu juízo perfeito. Talvez por isso a guria do vídeo não reagiu de maneira mais incisiva, pois corria o risco ainda de ser colocada como louca ou teria sido mais massacrada pelos 3 participantes.

Nesse vídeo fica explicito a inequidade de gênero e a tal da “broderagem”, que nada mais é que o levante de parceria, vinculação, proteção e empatia, amor ao sexo masculino, uns pelos outros inclusive de maneira inconsciente, a extensão do clube do bolinha na fase adulta, no fundo eles queriam competir entre eles e tirar a mana de escanteio, como faziam na infância. Mulheres também reproduzem esse levante, só que na servidão e defesa ao universo masculino, rivalizando e controlando umas com as outras, a sororidade é algo muito recente e urgente.

Quando mulheres apontam algo, se mostram indignadas, emitem alguma crítica contrária, percebem algo de errado na situação, seja em contexto profissional ou pessoal no qual existam homens, precisam meio que se desculpar com certa delicadeza por pensarem de tal maneira e ainda assim correm o risco de serem ignoradas, ironizadas ou de acontecer uma onda de indignação e revolta por parte dos homens e das outras mulheres, só que quando tais situações ocorrem inversamente, a postura, o respeito, a forma de falar e se posicionar muda automaticamente.

Um exemplo da inequidade de gêneros é quando nós mulheres falamos da existência cultura do estupro e que todo homem é um estuprador em potêncial, que é necessário desconstruir, fortalecer as meninas, desconstruir a educação violenta dos meninos, trabalhar a igualdade de gêneros, pegamos números, explicamos minuciosamente, mas somos infinitamente massacradas, ironizadas, desrespeitadas, chamadas de feminazis e quando um homem escreve sobre tudo isso de maneira ainda misógina, ele é aplaudido por outros homens e mulheres(https://trendr.com.br/como-foi-transar-com-uma-vitima-de-estupro-9210eea52090#.pch5k3lqb).

As pessoas se assustam quando digo que homem só escuta homem e escutam seletivamente as mulheres, só fazem questão de ouvir quando existe algum interesse que os beneficie de alguma forma (sexual, “afetivo”, financeiro) e se não existe tal interesse, fingem que escutam, ignoram ou escutam parcialmente no caso de críticas, só que nesse caso em específico, fazem questão de manipular a situação ao seu favor, até que a mulher em questão acabe inclusive pedindo desculpas pelo erro dele.

Existem outros comportamentos masculinos naturalizados em nossa cultura que são explicitados neste vídeo, reafirmo que em geral são quase imperceptíveis socialmente e causam o silenciamento feminino. A revista Capitolina aponta alguns desses comportamentos no artigo “Glossário de termos do feminismo” (vou deixar o link no final)  

mansplaining: o termo, que vem do inglês, quer dizer algo como “explicação masculina”. Você logo vai se lembrar de algum exemplo de um conhecido seu, homem, tentando te explicar um assunto que você provavelmente domina mais que ele. É uma ferramenta também utilizada para o manterrupting.

manterrupting: do inglês “interrupção masculina”, é quando um homem constantemente interrompe uma mulher falando – geralmente pra fazer mansplaining ou o bropriating.

bropriating: que significa que um cara ganhou todo o crédito por expressar uma ideia que uma mulher já tinha falado há tempos, ou seja, ele se apropriou de algo que não foi originalmente pensado por ele.

gaslighting: que é quando uma pessoa tenta te convencer de que você está louca, paranoica e com isso, invalidar seus sentimentos. O gaslighting está geralmente associado ao relacionamento abusivo, sendo utilizado pelo parceiro para o controle da mulher”

Termino o texto deixando duas músicas da Sia (sou apaixonada nela, na peculiaridade que ela expõe e no ballet contemporâneo da guria do clip) e um vídeo do Porta dos Fundos sobre broderagem, se atentem ao clipe da música Big Girls Cry, bem forte.  


Glossário de termos do Feminismo: http://www.revistacapitolina.com.br/glossario-de-termos-feminismo/