24 novembro 2016

Ceder não é consentir e nem permitir

Olá amades!

Hoje venho com um assunto que no cotidiano é banalizado pela lógica desigual das relações entre os gêneros e isso recai em vários aspectos na vida das mulheres, mas vou me ater às relações intimas e afetivas, lembrando que esse molde se aplica em vários contextos, é só mudar o cenário, que o pano de fundo é o mesmo, ou seja, as relações de poder. Ressaltando que não estou me baseando em relações igualitárias e de respeito mútuo, estou escrevendo sobre injustiça e desigualdade social com o gênero feminino, então não me venham dizer que tudo depende, essa é mais uma maneira de calar o questionamento.


Muito tem se falado sobre cultura do estupro nesse ano de 2016 e com essas intermináveis discussões vem à tona a questão de que estupro não tem nada em comum com sexo ou libido exacerbada, mas sim com a necessidade de controle e poder masculina (não pego exceção para pensar o mundo, mulher faz sim, mas é exceção) e não se estende somente às pessoas desconhecidas, na maioria dos casos são pessoas conhecidas, familiares e cônjuges das vítimas que cometem tais atos e talvez por essa complexidade afetiva, pensar em uma solução para essa questão seja difícil, afinal não somos acostumados com a cultura da denúncia e muito menos com a cultura de proteção à vítima, sempre se acha uma brecha para culpabiliza-las.

O medo inconsciente masculino é a perda do poder patriarcal (falocentrismo) e da mulher, o medo é não ser aceita, amada, reconhecida e seus atos em geral, são revertidos e distorcidos socialmente numa constante que às levam a sentir culpa por tudo e por todos, inclusive quando estão certas, mas a insistência e manipulação patriarcal que não admite erros, mesmo quando não tem razão, distorce tudo e as mulheres crescem inseridas nesse contexto que amordaça a autonomia feminina, não permite a construção da autoestima sólida e se desenvolvem em uma cultura que exige que relevem inclusive sua autoestima em prol dos outros.

O universo masculino se alimenta da subserviência compulsória feminina, não os culpo, a cultura ensinou que é permitido e o “não” feminino por muitas vezes só funciona na irritação, na imposição, na braveza e mesmo assim somos colocadas como “revoltadinhas”, “bravinhas”, “barraqueiras”, “grossas”, “loucas”, o que desqualifica e desmerece demais nossa maneira de ser no mundo, paralisam nosso “não” ao mesmo tempo que nos responsabilizam/culpabilizam por tudo e como diriam Mc Carol e Karol Conka

Desde pequenas aprendemos
Que silêncio não soluciona
Que a revolta vem à tona
Pois a justiça não funciona
Me ensinaram que éramos insuficientes
Discordei, pra ser ouvida o grito
Tem que ser potente


O “não” das mulheres dentro das relações afetivas (ficante/namoro/casamento) para ser ouvido e respeitado depende muito do interesse masculino, no que querem extrair da situação e se observam que não vai rolar o que desejam, agem como desequilibrados, agredindo verbalmente/fisicamente, nos infantilizam, manipulam afetivamente as situações, fazem chantagens em prol do seu bel prazer ou rola a insistência, que nada mais é que uma forma de suprir a necessidade de manter o poder sobre o outro e não é uma forma de demonstrar amor ou interesse.

A insistência masculina é mais uma maneira de abuso e desrespeito às escolhas femininas, é bem aquela coisa assim “ah! Mas se eu insistir vai que eu consigo, não custa nada” e fazem drama, chantagem, vitimismo, só que esse “não custa nada”, custa sim! Custa a falta de respeito às decisões femininas, a integridade. Em alguns casos até acontece o que desejavam e a mulher acaba cedendo (não permitindo ou consentindo) e sucumbe, pois não suporta mais a situação.

Agora a modinha masculina para o estupro, é colocar “boa noite cinderela” na bebida das mulheres e acreditem, isso é mais comum do que pensam, pode vir de pessoas que você nunca imaginaria, cuidado mulheres, pois ainda vocês correm o risco de serem culpabilizada e responsabilizada por ter bebido, pois socialmente a mulher não teria que ter permissão para beber, se o fazem e dá merda, a culpa é delas, nunca do agressor.  

Esse desrespeito abusivo ocorre em vários níveis, desde o ficar em baladas, que a guria fala não e o cara fica ali no pé até que a mulher se irrita ou acaba cedendo ou quando ela bebe muito e o cara se aproveita da situação para realizar suas vontades, até o caso do estupro marital/conjugal, muito banalizado socialmente, que em geral a mulher toma a decisão, não quer ter relações sexuais, independente do que à motivou e o sujeitinho usa das maneiras mais sujas para desviar o foco ao seu favor, obter a satisfação pelo poder e mostrar que só ele pode tomar decisões e que a decisão dela não vale nada ou o “não” novamente cai em desuso e se transforma em doença (dor de cabeça).

Existe também a situação dos fetiches masculinos e a insistência e manipulação para que se concretizem. Um exemplo é o homem que tem fetiche por ménage e insiste constantemente para a parceira heterossexual realizar e ela não pode nem se sentir ofendida, pois é coisa de homem sonhar com isso. Só porque é um sonho dele e não dela, a vontade dele é colocada em primeiro lugar, ela não sentir atração por mulheres não é importante, mas se a parceira tem o mesmo desejo por homens, na maioria dos casos, eles não abrem mão da heterossexualidade deles e ainda se sentem ofendidos com a proposta, o risco de rolar violência psicológica é grande nessa questão, tanto pela manipulação afetiva como na reação à “ofensa”.

Tais situações diferem de quando um quer e a outra pessoa não está muito afim e acaba ficando com vontade, isso se chama estimulação e em uma relação igualitária, de empatia e de respeito mútuo, a pessoa pode dizer ”não” sem ter medo, receios, melindre, culpabilização, pois sabe que será ouvida e enxergada em suas questões íntimas e não precisa usar da força para ser ouvida, não precisa ficar na defensiva para ser respeitada.

Não é atoa que sempre toco na questão de fortalecermos e ensinarmos nossas meninas a gostarem de si, desenvolver a autoestima mental e corporal, desconstruir a questão da subserviência compulsória, desconfiar, se proteger e se colocar em primeiro lugar, pois a tendência é sempre colocar o homem como portador do discernimento de certo e errado. O nosso desenvolvimento como mulheres autônomas foi falho em vários sentidos e nós é que devemos saber o que é melhor pra nós mesmas e não aceitar menos do que isso, pois a “sofrência” é solitária, falar não e fazer valer o não é necessário, nem que pra isso role barraco e gritaria, com o tempo nos acostumamos com a autoproteção. Acredito que ninguém aqui quer ver as filhas nessas situações.

Termino o texto de hoje deixando duas músicas, uma da Lady Gaga sobre estupro e a mega empoderadora 100% Feminista.



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