26 outubro 2016

Papéis de gênero e suas armadilhas na infância: a fragilidade feminina não aguenta dar mais biscoito ao patriarcado.

Olá pessoas, tudo bom?

Hoje venho novamente discorrer sobre papéis e comportamentos de gênero, sei que é sofrido adotar posicionamentos libertários e contribuir para o rompimento de costumes naturalizados em 5 mil anos, mas é necessário entender determinados aspectos sociais e necessário manter-se firme.

Desde que se descobre o sexo do bebê dentro do ventre, o ideário social invade o útero e determina os papéis de gênero, sendo que aos meninos exige-se que sejam fortes, ágeis, independentes, viris e às meninas que sejam donzelas, dependentes, companheiras, delicadas e frágeis. 

As brincadeiras dos meninos são violentas desde a tenra infância, seu universo lúdico combatente/estratégico é elogiado e reforçado, os desenhos infantis (Super Homem, Homem de Ferro, He-man, Capitão América, Comandos em Ação) e as áreas masculinas das lojas de brinquedos são um universo infinito de preparo para o mundo.Meninos na infância podem brincar e sonhar em ser super-herói, motoristas/pilotos do que quiserem (caminhão, carro, ambulância, trem, nave espacial), mecânicos, fuzileiros, carpinteiros, ninja, astronautas, arquitetos, policiais, pilotos de avião, cientistas, jogadores de futebol, bombeiros dentre infinitas profissões.

No cotidiano seus corpos, suas ogrices e o que vem do ser menino é adorado, inclusive quanto mais feder o “pum” melhor é, quem arrota todas as letras do alfabeto é campeão, quem bate mais forte é o mais aplaudido e temido com admiração, o vencedor de cuspe à distância também, quem dá mais embaixadinhas com a bola e faz um drible bem feito também é admirado, sem  falar dos jogos de videogame, meninas não tem vez nesse universo.

Meninos não brincam com temáticas como contos de fadas, na fantasia masculina existem monstros, alienígenas e eles não brincam de salvar princesas, não brincam de príncipes encantados protetores, no máximo eles são o exercito vitorioso da guerra ou a polícia que prendeu o bandido. A paternidade e o cuidado com o lar não estão como temáticas de suas brincadeiras, aliás, seus bonecos não parecem em nada com o que serão seus futuros filhos/as, eles têm superpoderes, armas e o que menos existe na brincadeira dos meninos são brincadeiras empáticas. O futebol é uma grande arena de combate, o prazer da brincadeira masculina é muito diferente do que é permito ao universo feminino.

Os meninos aprendem a ter amor na defesa pessoal, amor aos seus corpos e aos seus iguais, a empatia é desenvolvida nos jogos de equipe, na batalha por defender território ou vencer desafios. A escuta ao próximo é desenvolvida nos planos e estratégias, na argumentação e no respeito que aprendem a impor aos demais, seu território é livre para a expansão da criatividade e desenvolvimento, pois socialmente é permitido e esperado, ou seja, meninos aprendem que o mundo é deles e as meninas só podem entrar nas brincadeiras se são permitidas, necessitam pedir licença de alguma forma e quando não são permitidas, a rejeição vem em piadinhas, puxão de cabelo, desmerecimento, dentre outras forma de rechaço, pois o ideário impõe que meninas são chatas, fracas, e frescas e assim, meninos são condicionados a pensar que  ser menina não é algo que deve-se ter respeito.

Quando estão em casa, aprendem que as mulheres são as únicas responsáveis pelo cuidado com a casa e a família, seja nos afazeres domésticos, como em caso de doenças. Eles são dispensados das obrigações da casa, podem brincar enquanto a mãe lava e passa sua roupa suja, não precisam se preocupar, pois sempre foi dito que menino é assim mesmo, se suja brincando e quanto mais se sujar, melhor e se existe uma irmã nesse contexto, será responsabilizada por aprender os afazeres e “aí dela se não aprender!”, será taxada de irresponsável e inútil por muitos anos, até que ela internalize toda a sobrecarga e passe a se culpar por não ser uma pessoa que merece ser respeitada como o irmão é. 

Meu irmão quando éramos pequenos tinha o macabro hábito de me interromper e atrapalhar nas brincadeiras, me azucrinar. Quando eu ia chamar meus pais, ele saia correndo na frente e distorcia toda a história e eu que estava quieta no meu canto brincando feliz, acabava como a vilã e ele como o coitadinho violentado pela irmã, isso foi a infância inteira, tirando o dia que eu tive que comer uma colher sal aos 5 anos, para provar pra ele que eu sou mulher, pois tinha cabelo curto. Hoje em dia até conseguimos nos dar bem por um período, mas infelizmente o cara que mais cometeu misoginia comigo foi ele, com meus pais consentindo e passando a mão na cabeça dele. 

 Socialmente a tendência do que se espera de uma mulher é baseada na premissa pueril e infantilizada de que mulheres são doces, frágeis, indefesas, subservientes, companheiras, afetivas e assim a educação e o estar no mundo desde o ventre, é norteado por esses padrões misóginos paralisantes.  Meninas sonham em ser princesas, bailarinas, boas mães, constituir família, serviçal do lar, médica, professora, modelo, cantora, maquiadora, cabeleireira. 

Na ala feminina nas lojas de brinquedos existem vários utensílios domésticos, bonecas, bichos de pelúcia, muito glitter (ADOROOOOOOO), pôneis, fantasias de princesas, tudo muito rosa, brilhante e cheiroso. Os desenhos que são destinados às meninas (Moranguinho, Pequeno Pônei, Princesas Disney) são adocicados, delicados, fofos, cheios de regras de comportamento misóginas, terras encantadas, arco-íris, príncipes que salvam e princesas indefesas, casamentos, filhos, etc.

As brincadeiras femininas são moderadas, calmas, pois devemos nos comportar, devemos ser delicadas, falar baixo (gritar e impor opinião/desejos não é coisa de menina). Crescemos ouvindo que não devemos dar trabalho, que lutar é coisa de menino, que menino é mau educado mesmo e a gente tem que ser superior e se o menino bater, não devemos aprender a se defender, devemos chamar os adultos e o que nos cabe é chorar e implorar ajuda e sermos fraquinhas.

As brincadeiras são casinha, maquiagem, de desfile de moda, de terra encantada de princesas e em nenhum momento podemos aprender a defesa pessoal, aliás, aprendemos que defesa é coisa de meninos como eu disse acima. Em nossa educação, aprendemos que não devemos chamar atenção, que isso pega mal e devemos ter compostura.

Essa compostura é exigida a vida inteira, culturalmente não somos levadas a sério, somos condicionadas a calar nossas iguais também e para quem foi domesticada nesses moldes, aguentar a pressão masculina torna-se um fardo pesado e doloroso, pois não aprendemos a reagir e os meninos não aprenderam a nos respeitar, afinal, toda essa doçura exigida socialmente é vergonhosa aos olhos masculinos. Aprendem desde pequenos que mulher é exagerada, chata, se faz de vítima, justamente porque eles aprenderam se relacionar de maneira violenta, opressiva e defensiva entre eles e não se esqueçam que mulheres não fazem parte do meio deles na infância e são basicamente obrigadas a entender e respeitar o jeito de ser dos homens.

No momento em que vamos colocar o ponto de vista contrário desde pequenas, quando discordamos, somos hostilizadas e descredibilizadas das piores maneiras e se reagimos também somos hostilizadas e colocadas como desequilibradas, pois ao olhar social a mulher tem que ser doce o tempo todo e o ficar “bravinha”, “falar alto” e impor seu pensamento, é visto como loucura, chilique, birra e merece apanhar e assim se repete o que vivemos desde a infância ao sair do eixo determinado, merecemos punição. Essa onipotência masculina ensinada desde o ventre, contribui e promove em grande parte a cultura do estupro, pois se mulheres não são respeitadas e homens possuem dificuldade em ouvir e respeitar o não feminino, como vão se proteger? 

Pessoas, nós mulheres não somos orientadas a desconfiar e observar criticamente o mundo, a doçura ao feminino é mais uma forma de dominação, ser encantadora não protege ninguém de ser violentada, pois nos infantilizando retiram nossas forças. A fragilidade só nos faz indefesas e mendigas da permissão social, precisamos reaprender a educar as crianças, a ensinar as meninas a se defender, ensinar autodefesa, empodera-las desde o ventre, iniciar uma cultura de respeito às pessoas ao invés de respeito somente aos homens.

Mulheres amadas, depois de entender certos aspectos das relações de gênero penso que é hora de parar a fabricação dos biscoitos, devemos deixar de pedir autorização social, deixar de lado essa culpa e esse peso, parar de tentar agradar a todos, parar com a subserviência compulsória e se libertar. Sinceramente, essa postura de cão abanando rabo por carinho e aceitação não te protege e na verdade te coloca como alvo fácil. Fizeram você acreditar que o teu papel no mundo é de conciliadora, psicóloga, faxineira, lata de lixo, médica, enfermeira, advogada, parceira e quando é você quem mais precisa, o abandono vem como um trem bala te esmagando e tudo o que você precisa para eles é “mimimi de mulher fresca, chorona, infantil e fraca” e a realidade te derruba e você não aprendeu a se defender e reagir à isso, use essa força exigida de ti para teu bel prazer por amor à você mesma.
  
Termino o texto deixando uma palestra da Tiburi e duas músicas lacradoras. 




Um comentário:

Laercio disse...

Raquel, adorei o seu artigo. Quero seguir o seu blog; suas ideias revolucionárias certamente irão me ajudar muito nas mudanças que preciso fazer na minha vida.