12 setembro 2016

“Tira a mão daí menina! Isso é feio! Não é coisa de menina bonita!” – Explanações sobre anorgasmia/frigidez feminina.

Olá colegxs, amigues e leitorxs!

Pessoas queridas, eu poderia ter feito uma revisão em artigos científicos nas bases de dados e trazer um monte de literatura científica para vocês, mas desde que criei esse blog decidi que não, que seria um espaço para exercitar a escrita e sair dessa coisa de normatização acadêmica, então fiz imersão nas redes por uns dois dias querendo saber como anda o discurso sobre o prazer feminino, tanto no discurso feminino, quanto no masculino e pude captar muitas coisas.

No decorrer da minha vida de estudos percebo que quando vou falar sobre sexo como profissional que estuda essa área, sou respeitada em partes e é permitido, agora quando vou dialogar sobre sexo na vida pessoal percebo no caso dos homens, eles acham que estou me insinuando, afinal à autoestima dos homens hetero-cis é elevadíssima e mulher que entende de sexo é mulher promiscua.

Já nas mulheres observo uma trava muito grande, inclusive mulheres não falam de sexo nem entre elas ou se falam, raríssimo elas falarem do prazer delas, sempre é sobre a servidão ao sexo masculino e como fizeram para o parceiro sentir prazer e é aí que mora a questão de hoje.

Existem alguns textos que dizem que mulheres que sofrem de frigidez tiveram uma educação sexual repressora, concordo em partes, mas essa repressão não vem só da educação no seio familiar, vem da sociedade que trata da questão com certo desprezo, afinal, meninos desde que nascem são incentivados à virilidade e promiscuidade e as meninas ouvem a todo momento frases como a do título do texto, daí pra pior, e crescem com nojo de suas vaginas, não buscam conhecer o corpo, aprendem que só aos homens que cabe o prazer e à elas o silêncio, o fingimento e a anorgasmia.

Para o desenvolvimento de qualquer coisa em nossas vidas precisamos desenvolver um repertório comportamental, gosto do exemplo do caminhar, ou seja, a criança nasce imatura nesse sentido, mas com o transcorrer do desenvolvimento neurológico, físico e estimulação social, ela primeiramente vira de um lado para o outro, depois consegue virar de barriga pra baixo, começa a sentar e assim vai até conseguir caminhar e depois correr, pular, virar estrela, etc, assim é o desenvolvimento sexual genital também, não ocorre da noite pro dia, a criança que cresce ouvindo que tudo dela é horrível, que se ela não se comportar vai dar trabalho, que pra ser bonita tem que ser comportada e recatada, na hora desta experienciar sua sexualidade, a culpa vem à mente e nada acontece.

Às vezes chego a pensar que mulheres são educadas para uma vida de bonecas infláveis, pois se falam sobre sexo não possuem valor (putas, vadias, biscate), se exigem orgasmo são chatas e os homens não têm paciência “tadinhos” (machucar se parceira ficou seca não tem importância, elas nem ligam pro prazer mesmo é só dar uma cuspida que tudo fica bom de novo) e se ficam quietas e obedientes sofrem abusos em silêncio. Inclusive existe um agravante aí, eles assistem filme pornô e a maioria desses filmes estão mais violentos a cada dia e sempre colocam a mulher como escrava sexual e acaba-se acreditando que a regra da vida real é a mulher se comportar como nos filmes. Já ouviram a frase “prefiro mulher que seja uma dama na sociedade e uma puta na cama”, então, profissionais do sexo cobram para dar prazer ao homem e não ao homem dar prazer para elas, fica o “alerta canalha” aí gurias, foge desses ok!

Lembrando que tenho algumas amigas que são profissionais do sexo e tenho amor gigantesco e mega admiração por elas e pela profissão nada fácil delas, exatamente por serem as pessoas maravilhosas e do bem que são, amo vocês de verdade gurias.

A cultura de servidão ao sexo masculino, promove o auto abuso inconsciente em partes (fazer sexo sem vontade para satisfação masculina e por medo de perder o parceiro, fingir orgasmo para a satisfação do homem, fazer sexo só porque ele quer e se ele ouvir não vai rolar gaslighting e male tears, etc) e produz uma exigência monstro com relação ao orgasmo feminino e fico pensando seriamente que a sociedade é maluca mesmo, pois primeiro fazem a mulher acreditar que não podem ter prazer, que é pecado e aí a mulher não conheceu o caminho da felicidade e a sociedade exige a todo custo que tenha orgasmos múltiplos. Perguntem as mulheres mais velhas se já tiveram orgasmo e me arisco a dizer que somos filhes de uma geração de mães anorgásmicas e crentes que servir o homem é o único prazer que lhes cabe.

Mulher não costuma conversar sobre prazer, somente sobre a servidão sexual estrutural que vivenciam, falar sobre o orgasmo feminino é um tabu a ser quebrado urgentemente, pois sem conversarmos abertamente sem pudor, sem trocar “figurinhas”, isso sempre vai ser um campo obscuro e proibido, afinal,  homens falam de sexo com liberdade entre eles, inclusive nos grupos do whatsapp restrito aos homens, seja do trabalho, faculdade, futebol, amigos, etc, eles compartilham fotos, vídeos pornográficos e comentam abertamente sobre o ato sexual, sem opressão dos amigos, inclusive isso é diversão entre eles, não motivo pra chacota, eles adoram e estão certos, nós é que precisamos desenvolver nossa sororidade e também nos posicionar quanto ao não prazer e começar a verbalizar a insatisfação, nosso silêncio não nos leva à nada.

Assim como aprendemos várias coisas dialogando umas com as outras, falar sobre sexo é bem esclarecedor também, vi em alguns posts das páginas que visitei mulheres falando muito sobre se sentir sozinhas em várias questões e conversando sobre esses aspectos sentiram-se acolhidas, isso é um movimento de liberdade também e de amor às nós e nossas iguais. Não se esqueçam, sexualidade infantil existe, conversem muito abertamente com as filhas de vocês, elas merecem crescer sem essas amarras e se amando muito.

Vou terminar o texto comprido de hoje com uma musiquinha sexy/empoderadora e indicando os filmes “Azul é a cor mais quente” e “Lovelace”, o primeiro é um romance adolescente lésbico francês bem intenso que foi produzido a partir de uma história em quadrinhos (indico ler também, bem boa) e o outro sobre a atriz pornô Linda Lovelace, fala sobre a vida de abusos que ela sofreu no período em que filmava o filme “garganta profunda”, é o por trás das câmeras, deixem o pacotinho de lenço do lado, lágrimas rolam e não tem como segurar.






                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      

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