27 setembro 2016

Sobre empoderamento, falar não e ser livre.

Olá colegxs, amigues e leitorxs!

Hoje venho conversar um pouco com vocês sobre a parte vida novamente (feminismo e empoderamento), penso que falando sobre alguns aspectos talvez ajude algumas pessoas a sentirem-se mais confortáveis, sinto isso quando encontro um texto ou uma música que abraça algumas vivências que passei ou estou passando, afinal a identificação tira a gente da solidão de nossos pensamentos as vezes, é muito bom.

Todo último domingo de cada mês ocorre aqui em Ribeirão Preto o “Sarau das Combativas” na praça 7 de setembro, um evento de um grupo de muito amor composto por “molieres” fantásticas e nesse último domingo, me trouxe várias reflexões.

Quando eu era mais novinha, sempre fui brava com determinadas coisas e contestadora, não gostava desse lance de sacanear as pessoas, mas sou humana e já sacaneei, não tenho orgulho não, mas aprendi muitas coisas não pelas consequências e sim por consciência e por amor às pessoas.

As criticas ao meu modo de ser no mundo sempre foram severas e devastadoras, ao mesmo tempo em que diziam que eu tinha que ser forte, quando agia assim era exigido que não fosse e que me calasse, afinal, exigir respeito e empatia sempre cai naquelas de que “ah cada um tem um jeito de ser no mundo e você tem que entender” e essa frase nociva paralisa as coisas e te joga uma culpa monstro nas costas, até que de tanto ouvir, você passa a tentar agradar a todos que estão por perto e esquece de você mesma, pois na lógica mundana misógina e capitalista o que vale é ser agradável, manipulável e frágil.

Sempre que surgia em conversas com homens o assunto do FODA-SE, eu sempre enxia as pessoas de perguntas, pois com o passar do tempo, me tornei tudo o que eu não queria, uma pessoa encanada, paranoica e extremamente preocupada com a opinião alheia. Acreditei de verdade que eu era um ser horrível e temível, sem nada para contribuir. Sempre ouvi deles que o que vale é defender a ferro e fogo nossos ideais independente do que as pessoas possam pensar, sair do lugar de sentir culpa, é a linda lógica da sobrevivência. Só que para uma mulher agir dessa maneira é difícil, pois necessita de apatia, renegar certos comportamentos e posturas sociais exigidas, uma boa dose autoestima elevada e esquecer-se da auto condenação cotidiana contida em frases como “não faça com os outros o que não gostaria que fizessem com você” e colocar mais em prática aquela “a sua liberdade termina onde começa a minha”, pois dessa maneira nos respeitamos mais e damos limites às pessoas.

Por muito tempo acreditei que deveria evitar o confronto, o desequilíbrio e a raiva, só que a duras penas, pois ao evitar tudo isso a dor interna era imensa, eu passava por cima da maneira que eu pensava o mundo em prol de ficar tudo bem, em vários momentos às pessoas eram mais importantes, a convivência era mais importante, o amor e as relações eram mais importantes, o medo de destruir a pessoa com a minha opinião era terrível, só que não! Existem momentos da vida que nossa essência vale mais, que nossa autoproteção vale mais, que devemos colocar pingos nos “ís”, que não devemos dar o braço a torcer em situações injustas, é abrir o olho para quem quer nosso bem de verdade e não ficar mendigando migalhas afetivas de pessoas que na realidade não se importam com a gente.

Por um período nos últimos anos passei por vivencias muito nocivas, pesadas, de muitos abusos, principalmente de manipulações (gaslighting), mescladas com poucos momentos de falsas esperanças e de falsa empatia que exigia a todo custo que eu fosse omissa, passiva e permissiva. O feminismo aos poucos foi me resgatando e me empoderando de que eu era antigamente, da minha essência verdadeira e foi em março que consegui de verdade, depois de anos me olhar no espelho e me reconhecer como pessoa novamente, ter orgulho e amor pelo que sou, foi tão bom esse reencontro, pois passei uns 5 anos tentando achar essa Raquel que estava perdida, sei que é piegas, mas o feminismo salvou minha vida.

Hoje em dia com tudo o que tenho aprendido, penso que a melhor lição é a de que posso ser o que eu quiser, desde que eu queira ser, independente do que vão pensar e foda-se os outros. Não gosto de conviver com o universo masculino, são poucos os que eu ainda tolero por perto, com pé atrás sempre e posso sim fazer essa escolha, pois consegui entender a necessidade masculina de dominação/controle e o ódio consciente e inconsciente que existe contra as mulheres. Consegui resgatar o amor ao feminino e ser parceira das minhas iguais, entendi que a sororidade é a arma mais forte e fortalece a gente, ser mulher é maravilhoso e estar com elas dá muita satisfação, mesmo com as que não desenvolveram a sororidade.

Não consigo mais ser legal com quem desperta nó na garganta, não agrado mais, sou amor da cabeça aos pés com quem realmente me desperta alegria e confiança, o meu amor é seletivo e uso novamente a frase de Theodore Adorno “Serás amado apenas quando puderes mostrar a tua fraqueza, sem provocar nenhuma força...” e só me permito ser amor num contexto que posso ser eu mesma, fora disso não esperem flores, só pé atrás.

Ser permissiva só tirou a minha autonomia e fortaleceu meus agressores, ser a que sempre é boazinha e evita o não e quer o diálogo, só me deixou a mercê de mais violência, ser compreensiva só me deixou na solidão, achar que mulheres são inimigas só me afastou da minha essência, agora o foda-se só me empoderou e parto do princípio de que não sou uma pessoa cruel e sádica, mas sim uma pessoa decente e se o não é necessário para manter minha sanidade e equilíbrio, é utilizando ele que vou ser forte, pois querides, falar não é pra quem se ama, é pra quem gosta de si mesme. 

O feminismo liberta muito nesse sentido, pois te ajuda a desenvolver a autonomia e desfazer aquela necessidade misógina de ser aceita a todo custo e sempre que um homem me dizia sobre o foda-se, eu costumava perguntar como era isso, como era viver assim e meninas, a resposta sempre foi a mesma, é parar de sentir culpa por tudo e todos e se escutar, esqueçam as regras escutem mais suas necessidades.

Termino o texto dessa semana com três músicas lindas pra reflexão e aproveito pra colocar o vídeo fantástico da Jout Jout sobre relacionamentos abusivos.






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