08 setembro 2016

Brasil e o miserável exército do padrãozinho: inseguranças, anestesia social midiática, impossibilidade de questionamento e necessidade de controle.


Já faz um tempo que minha ficha caiu e quando estourei a bolha que me cegava e do estado zumbi que vivi a vida toda, foi de uma vez só, é como se o mundo se tornasse mais nítido agora, minha cabeça não para um minuto de pensar e um estado de contestação e permissão à dúvida me tomou de uma maneira que têm sido maravilhoso, horripilante em alguns momentos, mas libertador.

Estava no sábado à tarde sentada na sala mexendo no celular e comecei a observar o programa que estava passando na TV e me deparei com um apresentador vestido como o padrão classe média atual (calça jeans, camisa polo, bombadinho, postura narcísica de “bom moço”, cabelo com gel), algumas mulheres cirurgicamente e bonitas dançando, plateia adestrada para aplaudir, temática filantrópica pra ganhar audiência e credibilidade ao apresentador “bonzinho”, mais do mesmo de todo sábado.

Estou aqui hoje para falar de padrão e de como somos o tempo todo bombardeadxs pela mídia que dita a todo momento como devemos ser e como devemos controlar as outras pessoas, sim, pois sair desse padrão é motivo para controle e saciação da nossa necessidade de poder.

Inconscientemente, somos todos primatas em essência tentando viver em sociedade, afinal, para se viver em sociedade temos que nos proteger e negar nossa natureza interna e externa (princípio do prazer e realidade) ao mesmo tempo precisamos de líderes para ditar e saciar nossa insegurança infantil por um grande pai cuidador (Freud no artigo “O futuro de uma ilusão” discorre amplamente sobre).

A globalização e a popularização da internet promovem uma constante abertura ao contato com a diversidade cultural mundial, só que abrem também a porta da insegurança social em países com base conservadora, religiosa e patriarcal como o nosso.

Antigamente as pessoas mantinham o controle e manutenção da moral e dos bons costumes através da religião, seguindo os preceitos da religião dominante, hoje em dia a televisão faz isso com tudo e o que se vê nela é absorvido com tanta força, que o que se difere ao que é apresentado nela é tido como imoral/ilegal gerando insegurança nas pessoas mais adormecidas e estas reagem assim em geral:

“pois onde já se viu pintar o cabelo de azul? Coisa horrível, não tenho coragem, pessoa louca”, “meninos que nasceram homens virarem mulher? Isso só pode ser pra chamar a atenção, povo escroto, tem que apanhar, pois eu nunca teria filhos assim”, “Mulheres beijarem mulheres em público, que coisa nojenta, eu nunca faria isso!!!!!!”, “Vixe essa aí nem se depila, que horrorosa, não se cuida, eu por exemplo faço minha depilação a cada 15 dias”.

O que tenho observado é o fato de como as pessoas reproduzem um discurso de ódio ao seu próximo e talvez não percebam, mas machucam. O mimetismo social que promove a perda da identidade individual e subjetiva faz com que a população entre em estado de piloto automático, como marionetes condicionadas e intolerantes. Chego a pensar que estamos vivenciando um tipo de “apocalipse zumbi”, onde as pessoas estão psiquicamente anestesiadas.

Outro dia estava com uma pessoa assistindo um filme e uma das personagens, até o ponto que assisti, me parecia uma pessoa pertencente ao espectro não-binário, imediatamente a pessoa vira:

“Esse cara é escroto” e eu pergunto “porque?” e a pessoa “esse cabelo dele é escroto, essas roupas, você sabia que ele não é gay na realidade? Que o ator não é gay” e eu digo “tá e o que eu tenho haver com o fato dele ser gay ou não? e porque o cabelo e as roupas são escrotas?” e a pessoa “Eu não faria isso com o meu cabelo” e eu “só porque você não faria, o cara é escroto?”, daí a pessoa ficou brava comigo e não quis mais conversar.                 

Kurt Lewin realizou estudos no campo da psicologia social e em um desses estudos ele explicita a questão das maiorias psicológicas (a grande massa e os valores culturais reproduzidos e seguidos por estas) e minorias psicológicas (guetos sociais, costumes que não são de domínio da grande massa). O que acontece é que existem forças sociais centrífugas que tentam produzir um tipo de homeostase social, transformando a coletividade numa coisa só e as forças centrípetas (preconceito, machismo, intolerância) que jogam para a marginalidade o que não está dentro do padrão social daquele período da sociedade.

A regra é básica para existir uma sociedade controlada:

  1. Imponha um padrão de vida como se fosse um instinto, isso deixará a grande massa segura e incapaz de ter dúvidas e questionamento;
  2. Doutrine a grande massa para se autocontrolar e reproduzir esse padrão;
  3. Crie punições conscientes e inconscientes caso alguém ouse sair desses padrões impostos, pois a fome e a saciação da necessidade de poder é maior que qualquer vício em drogas;

Amigues vocês já se perguntaram em algum momento de suas existências se o que realmente vocês são é verdadeiro ou é compulsório? Se realmente vocês tiveram ou se permitiram ao direito de se questionar e ter dúvidas? Se vocês só estão seguindo a vida em piloto automático? Se o que te irrita em seu próximo é realmente uma irritação ou medo de lidar com o que difere de você?

Pessoas vou terminando o texto com algumas músicas para a reflexão, esse texto foi dificílimo de escrever, espero que vocês absorvam e nunca se esqueçam que amar o próximo é também permitir que as pessoas sejam elas mesmas, é libertar-se de vocês mesmos e conhecer a diversidade desse mundo complexo que vivemos. Saindo da posição do julgamento e entrando em um movimento de parceria, contribuímos para a redução da depressão, ansiedade e suicídio, pois amar não exige o uso da força, exige cooperação, afinal, aquele discurso ameaçador e silenciador só piora as coisas, talvez o que sirva para você, não é bom para o outro.

E para quem não entendeu: "Exército do padrãozinho fiscalizador e controlador da vida alheia, PARA QUE TÁ FEIO!"




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